segunda-feira, 25 de junho de 2018

O caminho do Reino: uma introdução às parábolas

Uma parábola é uma estória contada com elementos da vida cotidiana para ilustrar um princípio espiritual. Em Marcos 4:33-34 está escrito: “Com muitas parábolas semelhantes Jesus lhes anunciava a palavra, tanto quanto podiam receber. Não lhes dizia nada sem usar alguma parábola. Quando, porém, estava a sós com os seus discípulos, explicava-lhes tudo.”. De acordo com Klyne Snodgrass, as parábolas constituem cerca de 35% dos ensinos de Jesus. Logo, para interpretá-las é necessário considerar tanto o seu ambiente vivencial quanto o seu contexto literário, buscando sempre o princípio espiritual contido em cada uma delas.
Podemos dizer que, de modo geral, o conteúdo das parábolas de Jesus é o Reino de Deus. Elas aprofundam três importantes aspectos: a natureza do Reino – o Reino de Deus é o governo de Deus sobre tudo e sobre todos; a vida no Reino – no Reino de Deus a vida é marcada pela dinâmica da misericórdia; e a consumação do Reino – o Reino de Deus se consumará com a segunda vinda de Cristo, quando haverá julgamento da humanidade, e justiça plena sobre os novos céus e a nova terra.
Seguindo a estrutura dos próprios Evangelhos Sinópticos, as parábolas são contadas na Galiléia, na viagem até Jerusalém e em Jerusalém. Sob esta perspectiva, em Marcos, 50% das parábolas estão na Galiléia e 50% em Jerusalém. Em Mateus, 54,5% estão na Galiléia, 4,5% na viagem e 41% em Jerusalém. Em Lucas, 13,7% estão na Galiléia, 79,5% na viagem e 6,8% em Jerusalém. Fato é que, a maneira como Marcos, Lucas e Mateus organizam as parábolas em seus Evangelhos tem como propósito apresentar-nos quem é o discípulo de Jesus, ou seja, quem é aquele que segue pelo caminho do Reino de Deus. Assim, observemos três diferentes atitudes desse discípulo.
Primeira atitude: Para Marcos, o discípulo é aquele escuta a Palavra. Um exemplo disso é a “Parábola dos Tipos de Solo” ou “Parábola do Semeador”, em Marcos 4:3-9. A palavra que introduz essa parábola é: “Ouçam!”. As palavras que concluem essa parábola são: “Aquele que tem ouvidos para ouvir, ouça!”. Essa parábola descreve três incidentes de semeaduras malsucedidas e um incidente de semeadura exitosa. Na primeira semeadura malsucedida, a semente cai à beira do caminho. Seu desafio é o da centralidade da Palavra no coração do discípulo. Na segunda semeadura malsucedida, a semente cai sobre pedras. Seu desafio é o da profundidade da Palavra no coração do discípulo. Na terceira semeadura malsucedida, a semente cai entre espinhos. Seu desafio é o da frutificação da Palavra no coração do discípulo. Na única semeadura exitosa, a semente cai em boa terra, germina, cresce e dá boa colheita. O princípio espiritual que essa parábola ilustra é o seguinte: quem escuta-obedece a Palavra de Jesus colhe os frutos dessa Palavra na vida. Assim sendo, para Marcos, o discípulo é aquele que escuta a Palavra. Essa escuta da Palavra é sinônima da nossa disposição à obediência.
Segunda atitude: Para Lucas, o discípulo é aquele que se auto-humilha. Um exemplo disso é a “Parábola do Fariseu e do Publicano”, em Lucas 18:9-14. No verso 9, Jesus anuncia o público alvo dessa parábola: alguns que confiavam em sua própria justiça e desprezavam os outros. Vale ressaltar que o anúncio do público alvo é uma característica das parábolas de Lucas. Essa parábola contrasta dois personagens: o fariseu e o publicano.   O primeiro, o fariseu, se exalta, apresentando a Deus seus méritos. Ele confia em sua justiça própria e despreza os outros. O segundo, o publicano, se humilha, batendo no próprio peito. Ele é desprezado pelos outros e confia única e exclusivamente na misericórdia de Deus. O princípio espiritual que essa parábola ilustra é o seguinte: aquele que se exalta será humilhado e aquele se humilha será exaltado. Consequentemente, para Lucas, o discípulo é aquele que se auto-humilha. Essa auto-humilhação é condição para experimentarmos e para manifestarmos a misericórdia.
Terceira atitude: Para Mateus, o discípulo é aquele que pratica a justiça. Um exemplo disso é a “Parábola do Juízo das Nações”, em Mateus 25:31-46. Essa parábola é escatológica. Ela aponta para o fim da era presente, quando Jesus voltará em glória. Ele voltará e julgará todas as nações e toda a humanidade. Nesse julgamento, ele reunirá as nações e separará dentre elas as ovelhas e os bodes. As ovelhas ficarão do lado direito e os bodes do lado esquerdo. O lado direito é o lado da mão direita do Senhor, a mão da sua força, do seu poder e da sua salvação. As ovelhas são justas e benditas, e receberão o Reino como herança. Elas são benditas porque servem a Deus servindo as pessoas em suas necessidades. Ovelhas são sensíveis. Os bodes são injustos e malditos, e receberão o fogo eterno, preparado para o Diabo e seus anjos. Eles são malditos porque não servem a Deus servindo as pessoas em suas necessidades. Bodes são insensíveis. O princípio espiritual que essa parábola ilustra é o seguinte: os que servem a Jesus servindo as pessoas receberão o Reino como herança. Então, para Mateus, o discípulo é aquele que pratica a justiça. Essa prática da justiça é resultado do amor de Deus derramado em nossos corações.
Que Deus, por sua graça, nos ajude a segui-lo com integridade!

Luiz Felipe Xavier.

As próximas publicações serão sobre as parábolas de Jesus.

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Evitando as contendas

Desde o período que antecedeu as últimas eleições presidenciais, a polarização política no Brasil se acirra cada dia mais. De um lado pessoas de esquerda e do outro lado pessoas de direita. Como, em certa medida, a igreja reflete a sociedade na qual ela está inserida, de um lado temos irmãos de esquerda e do outro lado temos irmãos de direita. Diante deste cenário, algumas perguntas pastorais: Como cuidar de pessoas que estão em polos tão antagônicos no espectro político? Como ensiná-las que acima de suas ideologias, sejam elas quais forem, deve estar o Reino de Deus e a sua justiça? Como ajudá-las a se amarem ao invés de se odiarem? E mais: Como obedecer a ordem do apóstolo Paulo que, escrevendo aos Efésios, roga: “Façam todo o esforço para conservar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz.” (4:3)?
Na tentativa de responder essas perguntas, consideremos as palavras do mesmo Paulo, desta vez, escrevendo aos coríntios. Embora as razões das contendas naquela igreja sejam diferentes das razões das contendas nas nossas igrejas, os princípios ensinados pelo apóstolo são relevantes para hoje. Neste sentido, em 1 Coríntios, há três palavras que são muito importantes. A primeira é hairesis. Essa palavra pode ser traduzida por “escolha pessoal” diante de uma diversidade de opiniões e objetivos. A segunda é eris. Essa palavra pode ser traduzida por “contenda”, “disputa” e “discussão”. A terceira é shisma. Literalmente, essa palavra pode ser traduzida por “rasgo” e, metaforicamente, por “divisão” e “dissensão”. Fenomenologicamente, o que acontece é o seguinte: uma escolha pessoal (hairesis) pode gerar uma contenda (eris) e provocar uma divisão (shisma). Para evitar as contendas é necessário discernir a mentalidade mundana que está por trás delas. Tomando como referência 1 Coríntios 3, essa mentalidade mundana se expressa de três maneiras.
A primeira maneira pela qual a mentalidade mundana se expressa é a criancice (1-4). Paulo começa dizendo que não pode falar aos irmãos como a espirituais, como a pessoas que têm o Espírito Santo, mas como a carnais, como a pessoas que não tem o Espírito Santo. Eles têm o Espírito Santo, porém, agem como se não tivessem. Na verdade, os irmãos são crianças em Cristo. Ao invés de alimento sólido, só podem receber leite. Os irmãos são carnais, são como crianças, porque, de acordo com o contexto, eles não dão ouvidos ao Espírito Santo. O Espírito Santo sonda as coisas profundas de Deus, conhece os pensamentos de Deus e procede de Deus; ele ensina as palavras de Deus, interpreta as verdades espirituais e ajuda a discernir todas as coisas (cf. 1 Co. 2:10b-16a). Logo, só quem dá ouvidos ao Espírito Santo tem a mente de Cristo (cf. 2:16b). Todavia, como a carnalidade ou a criancice dos irmãos se manifesta? Através da rivalidade (zelos) e da contenda (eris). Eles defendem suas escolhas pessoais com tanto ardor que provocam brigas. Os de Paulo querem convencer os de Apolo e os de Apolo querem convencer os de Paulo. O resultado são as contendas. Paulo deixa claro que isso é mundano e carnal; é uma criancice espiritual.
Como podemos superar a criancice hoje? Há duas medidas que precisamos tomar. A primeira é dar ouvidos ao Espírito Santo. Para tal, precisamos parar, nos aquietar, silenciar e ouvir a Palavra revelada. A segunda é parar de tentar convencer os outros das nossas escolhas pessoais. Para tal, precisamos considerar a liberdade de consciência e, se possível, praticar um diálogo entre ouvintes.
A segunda maneira pela qual a mentalidade mundana se expressa é o partidarismo (5-17). Como já visto, o partidarismo na igreja de Corinto se dá entre os de Paulo e os de Apolo. Atacando esse partidarismo, o apóstolo pergunta: Quem é Apolo? Quem é Paulo? Ele mesmo responde: Apenas servos. Apolo e Paulo são servos do Senhor, exercendo seus dons na igreja. Para deixar isso bem claro, o apóstolo lança mão de duas comparações. A primeira comparação é oriunda da agricultura. Paulo planta, Apolo rega, contudo, Deus faz crescer. Deus é infinitamente mais importante do que Paulo e Apolo. Entretanto, porque eles realizam bem o seu trabalho, serão recompensados por Deus. A segunda comparação é oriunda da arquitetura. Paulo lança o alicerce, Apolo constrói sobre esse alicerce, no entanto, o edifício-santuário é de Deus. Fica claro que todos os construtores devem realizar muito bem o seu trabalho. Isso implica em manter o alicerce – que é Jesus Cristo – e em escolher bem os materiais que serão utilizados na construção. No Dia do Senhor, a obra de cada construtor será provada pelo fogo. Assim sendo, a igreja de Corinto é o santuário de Deus onde habita o Espírito Santo. Como esse santuário de Deus é sagrado, quem o destruir será destruído por Deus.
Como podemos superar o partidarismo hoje? Há também duas medidas que precisamos tomar. A primeira é reconhecer que as pessoas são relativas. Para tal, precisamos substituir apreciações ideais por apreciações reais. A segunda é constatar que Deus trabalha no mundo com pessoas relativas. Para tal, precisamos saber que os colaboradores de Deus serão recompensados e responsabilizados, e que os destruidores do trabalho de Deus serão destruídos.
A terceira e última maneira pela qual a mentalidade mundana se expressa é a loucura (18-23). Paulo conclui retomando o contraste entre a sabedoria deste mundo, que é loucura, e a sabedoria de Deus, que é verdadeira sabedoria. Em relação a isso, os irmãos não devem se enganar. A sabedoria deste mundo, que tanto seduz os coríntios, é loucura aos olhos de Deus. Isso porque Deus é mais sábio do que todos os homens sábios e os pensamentos desses homens sábios são inúteis. Então, ao invés de se gloriar em homens, os irmãos devem se gloriar em Deus – o foco deve estar sempre em Deus. Quando isso acontece, é possível desfrutar de tudo o que é bom como graça de Deus e descobrir que há mais riqueza no todo do que nas partes.
Por fim, como podemos superar a loucura hoje? Há ainda duas medidas que precisamos tomar. A primeira é manter o nosso foco sempre em Deus. Para tal, precisamos considerar a grandeza de Deus e a nossa pequenez. Como resultado, todas as demais coisas ao nosso redor ficarão do seu real tamanho. A segunda é desfrutar da riqueza do todo. Para tal, precisamos estar convencidos de que nossa perspectiva sobre a realidade é limitada e de que não temos toda a verdade em nós mesmos. Como resultado, descobriremos que há mais riqueza no todo do que nas partes.
Que Deus, por sua graça, nos ajude a evitar contendas!

Luiz Felipe Xavier.

P.S.: Todos nós podemos ter opiniões pessoais. Todos nós podemos expressar nossas opiniões pessoais. O que nós não podemos fazer é entrar em contendas com os nossos irmãos. Caso isso aconteça, a divisão entre nós será um risco real e iminente.

sábado, 7 de abril de 2018

Sobre o ex-presidente Lula - um breve testemunho pessoal

Em 1998, votei pela primeira vez. Votei no Lula. Perdemos.

Em 2002, votei novamente no Lula. Desta vez, ganhamos.

Em 2003, começavam os melhores anos da história recente do Brasil. Quanto a isso, os números são inquestionáveis.

Em 2006, votei no Lula de novo. Mais uma vez ganhamos. Nesta ocasião, o Brasil já se tornara uma nação respeitada no cenário político mundial.

Pela primeira vez na história, os pobres, em sentido amplo, foram representados e considerados neste país. Como resultado das políticas sociais do governo Lula, dezenas de milhões de pessoas foram beneficiadas e passaram a viver com mais dignidade. Que tempo maravilhoso!

Em 2011, com o maior índice de aprovação da história (mais de 80%), o Lula deixou a presidência. Nestes oito anos de governo, ele falhou? É óbvio! Ele é um ser humano. Talvez a sua principal falha tenha sido a de não promover as reformas estruturais que tanto necessitamos.

Tanto em 2010 quanto em 2014, por ser indiscutivelmente o maior líder político do país, o Lula elegeu e reelegeu a Dilma. Em 12 anos de governo Lula-Dilma, o maior mérito foi alcançado: a ONU retirou o Brasil do mapa da fome. Parecia um sonho, mas era realidade.

Em 2016, o Brasil sofreu um terrível golpe parlamentar. Sob o pretexto de acabar com a famigerada corrupção, retirou-se do poder a presidenta Dilma. Em seu lugar colocaram um traidor, líder de uma quadrilha.

Os investimentos no essencial foram congelados, os direitos dos trabalhadores vilipendiados e as riquezas nacionais entregues. Uma profunda crise institucional se estabeleceu. Hoje, quase ninguém mais acredita nos poderes executivo, legislativo e judiciário. Vivemos dias de caos e de desesperança.

Paralelamente a tudo isso, o ex-presidente Lula, sob ataque constante da grande mídia - também conhecida como quarto poder - disparou em todas as pesquisas de intenções de votos para as eleições 2018. Como é possível explicar isso? Feito massa fermentada, quanto mais batiam, mais ele crescia.

Logo, era preciso parar este sujeito. A grande questão é: como? Nas urnas, para o desespero dos seus adversários e inimigos, impossível. O povo, principalmente os pobres, tem boa memória. Assim, foi necessário lançar mão do poder judiciário. Com muita convicção e sem nenhuma prova, o ex-presidente Lula sofreu uma condenação política. Todos os recursos cabíveis foram tentados, porém, sem nenhum sucesso. Quem sabe um pedido de habeas corpus preventivo ao STF? Impossível também. Como declararam os profetas, aqueles amigos do traidor, o plano seria um grande acordo nacional, com o Supremo e com tudo.

Anteontem, mesmo sem se esgotar os recursos possíveis em segunda instância, a prisão do ex-presidente Lula foi decretada. Alegria para uma minoria poderosa, tristeza para uma maioria subjugada. Tristeza para mim também, confesso.

Se você me perguntar: Você acha que o ex-presidente Lula é inocente? Honestamente, acho que não. Repito: acho. Isso porque não acredito em inocentes no sistema político brasileiro. Em nenhum inocente. Esse sistema está carcomido pela corrupção até às entranhas. Todavia, continuo acreditando que todo cidadão brasileiro é inocente até que se prove o contrário. Repito: prove. No caso do ex-presidente Lula, nenhuma prova material foi apresentada. Assim sendo, sua condenação é um ato político, marcado pela injustiça. Da mesma forma que eu sou contra a corrupção, eu sou contra a injustiça.

Por fim, ao ex-presidente Lula a minha gratidão e minha solidariedade. Gratidão por tudo o que ele fez pelo nosso país. Os seus oito anos de governo jamais serão esquecidos. Tenho 36 anos de idade e posso afirmar com toda certeza: o melhor Brasil que vivi foi governado por este ex-metalúrgico nordestino. Os meus contemporâneos, até aqueles que o odeiam sem razão, não podem negar isso. E solidariedade porque a privação da liberdade não deve ser algo fácil para nenhum ser humano. Ainda mais quando esta é produto de uma condenação injusta.

Que o nosso bom e justo Deus tenha misericórdia do ex-presidente Lula e de todo o povo brasileiro!

Luiz Felipe Xavier.

Foto: Francisco Proner Ramos

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

O que é mais importante na vida

Jesus está em Jerusalém, na última semana do seu ministério terreno. Ali, ele pronuncia uma sentença contra o judaísmo do templo e reforça essa sentença. Neste reforço, Jesus conta a Parábola dos Lavradores aos chefes dos sacerdotes, aos mestres da lei e aos líderes religiosos. Depois disso, ele responde ao questionamento dos fariseus e dos herodianos sobre o pagamento de imposto a César, ao questionamento dos saduceus sobre a realidade da ressurreição e ao questionamento de um mestre da lei sobre os mandamentos. Acima de tudo, Jesus deixa claro que os seus discípulos são aqueles que obedecem aos seus mandamentos.
O mandamento mais importante é o amor a Deus (Mc. 12:28-30). Marcos diz que um mestre da lei se aproxima de Jesus e ouve o que ele estava discutindo com os saduceus sobre a realidade da ressurreição. Esse mestre da lei gosta da resposta de Jesus aos saduceus e se sente à vontade para lhe perguntar sobre qual é o mandamento mais importante. Na lei de Moisés há 613 mandamentos, sendo 365 ordens e 248 proibições. Logo, debater a importância relativa desses mandamentos é algo comum entre os mestres da lei. Eles querem descobrir o mais importante, o que explica os demais. Jesus responde à pergunta citando Deuteronômio 6:4-5, o shema: “Ouve, ó Israel, o Senhor, o nosso Deus, o Senhor é o único Senhor. Ame o Senhor, o seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma, de todo o seu entendimento e de todas as suas forças.”. Estes versos são recitados por todos os judeus no início e no fim do dia. Neles, observamos alguns detalhes interessantes. Primeiro, o povo de Deus é o povo da escuta. O texto afirma: “Ouve, ó Israel”. Segundo, a escuta possibilita o relacionamento pessoal com Deus. Esse Deus pode ser chamado de “nosso”. Terceiro, o único Deus com o qual o seu povo se relaciona pessoalmente é a Trindade. Em Deuteronômio 6:4, fonte dessa citação de Jesus, a palavra “Deus” é tradução de elohiym, um plural majestático. Literalmente, essa tradução seria “Deuses”. Nela, a fé cristã vê uma referência às pessoas do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Além disso, a palavra “único” é tradução de echad, “um conjunto”. Os hebreus têm duas palavras para dizer “um”: yachiyd, que é “um” para uma peça única (p. ex.: um pêssego); e echad, que é “um” para um conjunto único, distinto e só reconhecível como tal (p. ex.: um cacho de uva – talo e uvas separadamente não são cacho). Assim, o Deus de Israel é um só Deus, em três pessoas. Quarto, o povo de Deus ama a Deus com todo o seu ser. O texto diz: “Ame o Senhor”. Este amor é de todo o coração, que é o centro da vida, o centro das decisões e das ações. É amor de toda a alma, com sentimentos, afeições e desejos. É amor de todo o entendimento, com mente, intelecto e pensamentos. É amor de todas as forças, com todo vigor. Assim sendo, Jesus deixa claro que o amor a Deus é o mandamento mais importante.
Diante de tudo isso, como amamos a Deus? O nosso amor a Deus expressa-se, especialmente, em obediência (Cf. Jo. 14:21). Nós amamos a Deus adorando-lhe exclusivamente. Isso significa que os ídolos devem ser identificados e abandonados. Nós amamos a Deus buscando-lhe integralmente. Isso porque a sede e a fome espirituais são marcas de alguém que nasceu de novo, que foi regenerado. Dentre outras coisas, essa busca por Deus nos exigirá algo muito precioso: o nosso tempo.
O segundo mandamento mais importante é o amor ao próximo (Mc. 12:31-34). Tendo respondido a pergunta do mestre da lei sobre o mandamento mais importante, Jesus, citando agora Levítico 19:18, acrescenta o segundo mais importante: “Ame o seu próximo como a si mesmo”. Esse “como a si mesmo” pressupõe que o amor próprio seja algo natural. E Jesus continua, afirmando: “Não existe mandamento maior do que estes”. Aqui temos um detalhe importante: A palavra “mandamento” está no singular. Isso significa que o amor a Deus e o amor ao próximo são um só e mesmo mandamento. É exatamente isso que o apóstolo João diz: “Ele nos deu este mandamento [singular]: Quem ama a Deus, ame também o seu irmão.” (1 Jo. 4:21). Jesus deixa claro que o amor ao próximo é o segundo mandamento mais importante. Consequentemente, o amor é a lei da vida para todos aqueles que são discípulos de Jesus. Sobre isso, o apóstolo João também afirma: “Um novo mandamento lhes dou: Amem-se uns aos outros. Como eu os amei, vocês devem amar-se uns aos outros. Com isso todos saberão que vocês são meus discípulos, se vocês se amarem uns aos outros.” (Jo. 13:34-35). Então, o amor é a identidade dos discípulos de Jesus. Evitando mencionar o nome de Deus, o mestre da lei reconhece que Jesus está certo. Jesus, por sua vez, declara: “Você não está longe do Reino de Deus.”. Apesar da sua religiosidade, o mestre da lei ainda está fora. Mas está perto. Para entrar no Reino de Deus, basta arrepender-se e crer (Cf. Mc. 1:14-15).
Frente a tudo isso, como amamos ao nosso próximo? O nosso amor ao próximo manifesta-se, principalmente, em serviço. Nós amamos o nosso próximo quando discernimos suas necessidades e procuramos supri-las. Para tal, precisamos de ouvidos atentos, de coração aberto e de mãos operantes. Nós amamos o nosso próximo com atitudes concretas de bondade em sua direção. Sobre isso, Ricardo Barbosa escreve: “É possível amar uns aos outros, até mesmo os inimigos, como Jesus afirmou. Não se trata do que eu sinto por eles, mas do quanto eu estou disposto a promover o bem deles. Foi isso que Deus fez por meio de Cristo, e é isso que somos chamados a fazer.”.
Que Deus, por sua graça, nos ajude a realizar o que é mais importante na vida! Que ele nos ajude a amar!

Luiz Felipe Xavier.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Somente Cristo

Estamos comemorando os 500 anos da Reforma Protestante. Comemorar é trazer à memória, é recordar algo junto com alguém. Queremos comemorar especialmente os chamados 5 Solas: somente a Escritura, somente Cristo, somente a graça, somente a fé e somente a Deus glória. Isso porque nesses 5 Solas encontram-se as verdades centrais do Evangelho. Somente a Escritura, devidamente interpretada, é absoluta em questões relacionadas à nossa fé e à nossa prática. Ela nos apresenta Cristo e somente Cristo é o nosso Salvador e Senhor. A salvação que ele nos oferece é somente pela graça. Ela é um presente que recebemos somente pela fé. Logo, somente Deus é digno de toda a glória. Essas verdades centrais do Evangelho nos conferem identidade e nos convocam à unidade.

O vídeo abaixo é uma seleção que fiz de cenas do filme “Lutero”. Essa seleção ilustra o contexto histórico, principalmente religioso, no qual nasce a Reforma Protestante. Ao assistir esse vídeo, tente imaginar o poder dos 5 Solas na vida daquela gente simples da Europa no século XVI...





Aqui, de modo especial, interessa-nos um dos 5 Solas: o somente Cristo. Como visto no vídeo, na Idade Média, a igreja romana forja em seus membros a compreensão de que a salvação é alcançada por suas boas obras. Dentre elas estão as confissões aos sacerdotes, as práticas das penitências, as intercessões dos santos, as coleções das relíquias, as compras das indulgências, as celebrações das missas, etc.. Diante disso, os reformadores propõem que a salvação baseia-se única e exclusivamente na obra de Cristo realizada na cruz, e que a salvação é produto da justiça de Cristo imputada graciosamente por Deus aos seres humanos pecadores. Assim, somente Cristo é o mediador entre Deus e os homens (cf. 1 Tm. 2:5).

Talvez um dos melhores exemplos do “somente Cristo” no pensamento de Martinho Lutero esteja no conhecido Debate de Heidelberg. Esse debate acontece em 26 de abril de 1518, na reunião trienal do capítulo geral dos agostinianos alemães. Para ele, Lutero prepara 28 teses teológicas. Da tese 1 à tese 18, fica evidente que o ser humano não pode confiar na obediência à lei e na prática das boas obras para se salvar. Da tese 19 à tese 22, fica evidente que a teologia da glória é oposta à teologia da cruz. E da tese 23 à tese 28, fica evidente que a salvação para o ser humano está somente em Cristo. Observemos algumas dessas teses, seguidas dos comentários do próprio Lutero sobre elas.

16) O ser humano que crê querer chegar à graça fazendo o que está em si acrescenta pecado sobre pecado, de sorte que se torna duplamente réu.
“A lei humilha, a graça exalta. A lei opera o temor e a ira; a graça opera a esperança e a misericórdia. Pois pela lei é adquirido o conhecimento do pecado; pelo conhecimento do pecado, porém, a humildade; e pela humildade, a graça. Desta forma, a obra estranha de Deus realiza, por fim, a sua própria, fazendo um pecador para torná-lo justo.”
17) Entretanto, falar assim não significa dar motivo para o desespero, mas para humilhar-se, e suscitar o empenho no sentido de procurar a graça de Cristo.
“Pois o desejo da graça só surge quando nasceu o conhecimento do pecado. (...) De igual modo, dizer que nada somos e que sempre pecamos quando fazemos o que está em nós não é tornar as pessoas desesperadas (a não ser que sejam tolas), e sim torná-las ansiosas pela graça de nosso Senhor Jesus Cristo.”
18) Certo é que o ser humano deve desesperar totalmente de si mesmo, a fim de tornar-se apto para conseguir a graça de Cristo.

19) Não se pode designar condignamente de teólogo quem enxerga as coisas invisíveis de Deus compreendendo-as por intermédio daquelas que estão feitas;
20) mas sim quem compreende as coisas visíveis e posteriores de Deus enxergando-as pelos sofrimentos e pela cruz.
“Assim, não basta nem adianta a ninguém conhecer a Deus em glória e majestade se não o conhece também na humildade e ignomínia da cruz. (...) Portanto, no Cristo crucificado é que estão a verdadeira teologia e o verdadeiro conhecimento de Deus.

23) A lei provoca a ira de Deus, mata, maldiz, acusa, julga e condena tudo o que não está em Cristo.
24) Não obstante, aquela sabedoria não é má, nem se deve fugir da lei; sem a teologia da cruz, porém, o ser humano faz péssimo uso daquilo que há de melhor.
25) Justo não é quem pratica muitas obras, mas quem, sem obra, muito crê em Cristo.
“(...) a justiça de Deus não é adquirida através de atos freqüentemente repetidos (...) Pois o justo vive a partir da fé (Rm. 1.17). Daí quero que a expressão “sem obras” seja entendida não no sentido de que o justo nada opere, mas no sentido de que as suas obras não fazem a sua justiça; antes, é a sua justiça que faz as obras.”
26) A lei diz: “Faz isto”, mas nunca é feito; a graça diz: “Crê neste”, e já está tudo feito.
“(...) é a fé que justifica, sendo que a lei, diz o B. Agostinho, preceitua o que a fé efetua. Assim, pois, pela fé Cristo está em nós, sim, é uno conosco. Mas Cristo é justo e cumpre todos os mandamentos de Deus, razão pela qual também nós cumprimos todos eles através de Cristo, uma vez que ele se tornou nosso pela fé.”
27) Poder-se-ia dizer, com razão, que a obra de Cristo é a que opera e que a nossa é a operada, e, por conseguinte, que a obra operada agrada a Deus pela graça da obra operante.
“Pois na medida em que Cristo habita em nós pela fé, ele nos move às obras por aquela fé viva em suas obras. As obras que ele mesmo faz são cumprimento dos mandamentos de Deus, a nós concedida pela fé.”
28) O amor de Deus não acha, mas cria aquilo que lhe agrada; o amor do ser humano surge a partir do objeto que lhe agrada.
“A primeira parte é evidente, porque o amor de Deus, vivendo no ser humano, ama pecadores, maus, tolos, fracos, para torná-los justos, bons, sábios e fortes; assim, antes, derrama e proporciona o bem. Pois os pecadores são belos por serem amados, e não são amados por serem belos.”

Por fim, tomando o “somente Cristo” como referência, podemos pensar em pelo menos três aplicações. A primeira é que Jesus é o nosso único Salvador e Senhor. Isso implica na exclusividade da salvação em Cristo, em uma sociedade cada vez mais pluralista, e na exclusividade do senhorio de Cristo, em uma sociedade cada vez mais autônoma. A segunda aplicação é que a cruz de Cristo é o ponto de partida para a nossa espiritualidade. Ela nos convida não apenas ao exercício da contemplação como também ao exercício da meditação. A terceira aplicação é que o solus Christus (somente Cristo) está relacionado ao corpus Christi (corpo de Cristo). Uma vez que a Igreja é o corpo do qual Cristo é o cabeça, Cristo e a Igreja não podem ser separados. Ou seja, quem tem comunhão com Cristo, que é o cabeça, tem também comunhão com a Igreja, que é o seu corpo. Esta última aplicação reveste-se de importância ainda maior no contexto onde alguns dizem: “Cristo sim, Igreja não!”.

Comemoremos a Reforma Protestante! Reafirmemos o somente Cristo!

Luiz Felipe Xavier.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Superando os obstáculos a uma vida de serviço

Ao longo da viagem da Galiléia à Judéia, Jesus faz três predições da cruz. Depois da terceira, Tiago e João perguntam-lhe sobre o trono. Eles querem assentar um à sua direita e outro à sua esquerda. Mais uma vez, os discípulos demonstram incompreensão sobre quem é Jesus e sobre qual é a sua missão. Tiago e João interpretam o Reino de Deus com as categorias dos reinos deste mundo. Mas, no Reino de Deus, o mais importante e o primeiro é aquele que é servo e escravo de todos. Para vivermos como servos e escravos de todos, precisamos superar pelo menos três obstáculos.
O primeiro obstáculo é a busca por prestígio. Tiago e João aproximam-se de Jesus com a seguinte declaração: “Mestre, queremos que nos faças o que vamos te pedir.”. Com essa declaração, eles querem garantir a resposta positiva antes mesmo de fazer a pergunta. Sem dizer “sim” ou “não”, Jesus pergunta: “O que vocês querem que eu lhes faça?”. Eles respondem: “Permite que na tua glória, nos assentemos um à tua direita e outro à tua esquerda.”. Tiago e João estão em busca de prestígio. Eles querem um lugar de exaltação, porém, Jesus está indo para um lugar de humilhação. Logo, o primeiro obstáculo à vida de serviço é a busca por prestígio. Todos nós precisamos superar este obstáculo. Para tal, precisamos sondar o nosso coração, dar atenção devida à palavra de Jesus e preferir a auto-humilhação à auto-exaltação.
O segundo obstáculo é a busca por primazia. O texto segue e Jesus diz a Tiago e a João: “Vocês não sabem o que estão pedindo. Podem vocês beber o cálice que eu estou bebendo ou ser batizados com o batismo que eu estou sendo batizado?”. O cálice que Jesus está bebendo é o da ira de Deus sobre ele por causa dos pecados da humanidade. Neste contexto, o símbolo do batismo é semelhante ao símbolo do cálice. Assim, o que Jesus está perguntando a Tiago e a João é se eles podem compartilhar do seu destino: sofrimento e morte. Surpreendentemente, eles respondem: “Podemos”. Sem questioná-los, Jesus afirma: “Vocês beberão o cálice que eu estou bebendo e serão batizados com o batismo com que estou sendo batizado; mas o assentar-se à minha direita ou à minha esquerda não cabe a mim conceder. Esses lugares pertencem àqueles para quem foram preparados.”. Em certo sentido, não no substitutivo e no propiciatório, Tiago e João compartilham o destino de Jesus: sofrimento e morte. Tiago é assassinado a mando de Herodes em 44 d.C. e João é perseguido a mando de Domiciano em cerca de 95 d.C..
Ouvindo esta conversa de Tiago e João com Jesus, os outros dez discípulos ficam indignados. Isso porque eles também querem o mesmo prestigio que Tiago e João requisitaram. Todos eles são discípulos que buscam a primazia. Todos eles querem os primeiros lugares. Assim sendo, o segundo obstáculo à vida de serviço é a busca por primazia. Todos nós precisamos superar também este obstáculo. Para tal, precisamos assumir a possibilidade do sofrimento, fazer cessar as comparações no nosso coração e procurar os últimos lugares ao invés dos primeiros.
O terceiro obstáculo é a busca por poder. Neste momento, Jesus precisa fazer uma intervenção pedagógica. Nessa intervenção, ele compara o modus operandi deste mundo com o modus operandi do Reino de Deus. No modus operandi deste mundo, os governantes das nações as dominam e os importantes exercem poder sobre elas (o imperador Tibério, o governador Herodes, etc.). Aqui, Jesus faz uma declaração chocante: “Não será assim entre vocês”. Ou seja, quem quiser ser discípulo de Jesus não pode pensar e agir com as categorias do modus operandi deste mundo, não pode pensar e agir com as categorias de domínio e de poder. Isso porque o mudus operandi deste mundo é contrário ao modus operandi do Reino de Deus. Neste, Jesus continua, quem quiser tornar-se importante deverá ser servo e quem quiser ser o primeiro deverá ser escravo de todos.      Isto é, o Reino de Deus é um reino de ponta à cabeça. Se neste mundo busca-se poder, no Reino de Deus busca-se serviço.
Tendo apresentado o conteúdo do seu ensino, Jesus agora o exemplifica. Ele diz: “Pois nem mesmo o Filho do homem veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos.”. É assim que o próprio Jesus resume a sua missão: serviço e dádiva da própria vida. Então, por meio do serviço ele ilustra o modo de vida do discípulo e por meio da entrega da própria vida ele resgata esse discípulo para que este possa viver servindo. Em Jesus está a nossa redenção! Portanto, o terceiro obstáculo à vida de serviço é a busca por poder. Todos nós precisamos superar ainda este obstáculo. Para tal, precisamos abandonar o modus operandi do mundo e assumir, de fato, o modus operandi do Reino de Deus, servir a todos na família, na igreja e na sociedade, e seguir os passos de Jesus, nosso modelo de serviço e doação.
Que assim seja!
Luiz Felipe Xavier.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Há esperança!

Jesus decide ir para Jerusalém. Mas antes de rumar à capital, ouve a confissão de Pedro: “Tu és o Cristo”. Ouvindo essa confissão, Jesus faz a sua primeira predição da cruz. O Filho do homem vai sofrer, vai ser rejeitado, vai ser morto e vai ressuscitar. Logo, quem quiser ser seu discípulo precisa estar consciente do preço embutido em tal decisão. O discípulo deve negar-se a si mesmo, tomar a sua cruz e seguir Jesus. É exatamente neste contexto que acontece a chamada transfiguração. A visão de Jesus transfigurado no presente é uma prévia da visão de Jesus glorificado no futuro. Assim, há esperança! A transfiguração de Jesus é fonte de esperança para todos aqueles que são seus discípulos. Em Marcos 9:1-13, essa esperança possui três fundamentos.
O primeiro fundamento da esperança é a glória de Jesus. Seis dias depois da confissão em Cesaréia de Filipe, Jesus toma consigo Pedro, Tiago e João, e os leva a um alto monte, onde ficam a sós. Por que Jesus escolhe estes três e não outros? Provavelmente porque Pedro, Tiago e João são os que têm mais dificuldade de discernir quem é Jesus e qual é a sua missão. Ali, no alto do monte, Jesus é transfigurado diante deles. Suas roupas ficam brancas. Na verdade, ficam resplandecentes. Elias e Moisés aparecem diante deles. Elias, representando os profetas, e Moisés, representando a lei. Ambos representam a antiga aliança. Além disso, a presença de Elias e de Moisés tem um significado escatológico. Ambos eram esperados antes do fim.
A glória de Jesus na transfiguração aponta-nos a plenitude futura do Reino de Deus. Apesar do caos que experimentamos no mundo, um dia tudo será segundo a vontade de Deus. Imagine um tempo quando o amor vencerá o ódio; quando o bem vencerá o mal; quando a justiça vencerá a injustiça; quando a paz vencerá a guerra; quando a alegria vencerá a tristeza; quando tudo for exatamente como o nosso Deus deseja. Esta convicção é capaz de encher o nosso coração de esperança. E enquanto o Reino de Deus ainda não é pleno, nós fazemos o que está ao nosso alcance para expandi-lo. Nós sinalizamos amor, bem, justiça, paz, alegria, etc..
O segundo fundamento da esperança é a palavra de Jesus. Enquanto acontece a transfiguração, Pedro diz a Jesus: “Mestre, é bom estarmos aqui.”. Era tão bom estarem ali que Pedro sugere a construção de três tendas: uma para Jesus, uma para Moisés e outra para Elias. Pedro faz essa sugestão porque ele não sabia o que dizer, pois eles estavam apavorados. Comentando este texto, José Antônio Pagola afirma: “Pedro não entendeu nada. Por um lado, coloca Jesus no mesmo plano e no mesmo nível de Elias e Moisés: a cada um sua tenda. Por outro lado, continua resistindo à dureza do caminho de Jesus; quer retê-lo na glória do [monte] Tabor, longe da paixão e da cruz do [monte] Calvário.”. A seguir, uma nuvem os envolve e o Pai vem corrigir Pedro. Da nuvem sai uma voz: “Este é o meu Filho amado. Ouçam-no!”. Aqui se encontra o clímax da narrativa. Se, antes, Elias e Moisés davam testemunho de Jesus, agora, o próprio Pai o faz. Pedro, Tiago e João devem ouvir as palavras de Jesus sobre quem ele era e sobre qual era a sua missão. Além disso, eles devem ouvir as palavras sobre negar-se a si mesmo, tomar a sua cruz e seguir Jesus. De repente, quando Pedro, Tiago e João olham ao redor não vêem mais ninguém, a não ser Jesus.
O testemunho do Pai sobre quem é Jesus impõe-nos a obediência presente à sua palavra. Sobre isso, José Antônio Pagola declara: “Para ser cristão, o mais decisivo não é em que coisas uma pessoa crê, mas que relação ela vive com Jesus.”. A nossa relação com Jesus é diretamente relacionada à nossa submissão a ele. Assim sendo, um bom exercício é o de reler os Evangelhos destacando as palavras de Jesus que precisamos ouvir e obedecer.
O terceiro fundamento da esperança é a ressurreição de Jesus. Na descida do monte, Jesus ordena a Pedro, Tiago e João que não contem nada a ninguém. Ou seja, a experiência que tiveram deve ser guardada em segredo. Esse segredo tem prazo: eles não podem contar nada a ninguém até que Jesus, o Filho do homem, ressuscite dos mortos. Entre si, Pedro, Tiago e João discutem o significado da ressurreição. Tendo discutido, eles perguntam a Jesus: “Por que os mestres da lei dizem que é necessário que Elias venha primeiro?”. Inacreditavelmente, eles ainda parecem considerar o ensino dos mestres da lei ao invés de considerar o ensino de Jesus. Pacientemente, Jesus responde que Elias deve vir primeiro e que ele já veio. Isso porque João Batista foi um profeta semelhante a Elias; ambos chamaram o povo de Deus ao arrependimento. João Batista veio e fizeram com ele o que quiseram. Assim como Elias foi perseguido por Acabe e Jezabel, João Batista foi perseguido por Herodes e Herodias. E assim como João Batista foi perseguido e morto, Jesus também será perseguido e morto. Jesus morrerá e ressuscitará.
A realidade passada da ressurreição de Jesus encoraja-nos a enfrentar tempos difíceis. Jesus não nos prometeu tempos fáceis. A única promessa que temos é a de que os tempos difíceis não durarão para sempre. Isso porque Jesus ressuscitou dos mortos. Na ressurreição de Jesus, a vida venceu a morte. Isto é, a morte morreu. Então, a morte e as realidades de morte não têm mais a palavra final. A palavra final quem tem é Jesus, aquele que venceu a morte. Portanto, há esperança!
Por fim, este texto nos convida a três olhares: no passado, contemplamos a ressurreição de Jesus; no presente, contemplamos a palavra de Jesus; no futuro, contemplamos a glória de Jesus. Nesses três olhares estão os fundamentos da nossa esperança. Que assim seja!
Luiz Felipe Xavier.

Dedico este texto ao meu querido tio George César Almeida Xavier. Ele nos deixou cedo demais.