terça-feira, 11 de abril de 2017

Pior cego é aquele que acha que vê

O Evangelho de Marcos nos apresenta uma série de quatro milagres sobre “ouvir” e “ver”. O primeiro é a cura de um surdo e gago; o segundo é a cura de um cego em duas etapas – diga-se de passagem, o único milagre nos Evangelhos que acontece em etapas; o terceiro é a cura de um endemoninhado surdo e mudo; e o quarto é a cura do cego Bartimeu. Como todo texto bíblico, a narrativa da cura do cego em duas etapas (8:22-26) precisa ser lida à luz do seu contexto imediatamente anterior, que trata da cegueira dos discípulos de Jesus (8:14-21). Embora estes já vejam mais do que os líderes religiosos de Israel, eles ainda não vêem tudo claramente. Logo, a narrativa da cura do cego em duas etapas pode ser lida a partir do fato em si, a restauração física, e a partir do que o fato simboliza, a restauração espiritual. Isso porque Jesus é o Messias que restaura tanto a visão física quanto a visão espiritual. Tomando como referência essa narrativa, constatamos que o processo de restauração dessas visões se dá em três etapas.
A primeira etapa é a da cegueira total. Marcos diz que Jesus e os discípulos vão para Betsaida, uma aldeia de pescadores na margem norte do Lago da Galiléia, a leste da foz do Jordão. Ali, algumas pessoas levam um homem cego e pedem a Jesus que o toque. Esse homem é alguém que se sente amaldiçoado por Deus e excluído da vida religiosa. Mas Jesus o toma pela mão e o leva para fora do povoado. Aqui, chama a atenção o fato de que a condição inicial desse homem simboliza a condição inicial dos discípulos: cegueira total. O que os discípulos não viam? Eles não viam que Jesus acolhe pecadores por graça, não por méritos. Marcos deixa claro que Jesus acolhe graciosamente os “amaldiçoados” e excluídos da vida religiosa e nos chama a fazer o mesmo. Como igreja de Jesus, precisamos estar de braços abertos. Mais do que isso, precisamos dar o braço e caminhar com aqueles “amaldiçoados” e excluídos que nos são trazidos.
A segunda etapa é a da visão parcial. Fora do povoado, Jesus cospe nos olhos do homem cego e lhe impõe as mãos. Depois de fazer isso, Jesus lhe pergunta: “Você está vendo alguma coisa?”. O homem levanta os olhos e diz: “Vejo pessoas; elas parecem árvores andando.”. Sua visão ainda está turva. Agora, porém, ele deixa a condição de cegueira total e entra na condição de visão parcial. Aqui, chama a atenção o fato de que a condição intermediária do homem simboliza a condição atual dos discípulos: visão parcial. O que os discípulos vêem parcialmente? Embora já vejam a graça de Jesus, eles ainda não conseguem ver os efeitos danosos da hipocrisia religiosa dos seus dias. No contexto imediatamente anterior, essa hipocrisia é ilustrada pelo chamado “fermento dos fariseus”. Marcos deixa claro também que Jesus se compadece dos que sofrem e nos chama a fazer o mesmo. Nós nos compadecemos dos que sofrem quando o seu sofrimento nos afeta e nos leva à ação em seu favor.
A terceira e última etapa é a da visão total. Mais uma vez, Jesus coloca as mãos sobre os olhos do homem. Desta vez, seus olhos são abertos totalmente. O milagre se consuma, sua vista é restaurada e ele vê tudo claramente. O que está acontecendo aqui é o cumprimento das profecias messiânicas. Tomemos como exemplo a profecia de Isaías 42:6-7,16: “Eu, o Senhor, o chamei para a justiça; segurarei firme a sua mão. Eu o guardarei e farei de você um mediador para o povo e uma luz para os gentios, para abrir os olhos aos cegos, para libertar da prisão os cativos e para livrar do calabouço os que habitam na escuridão. (...) Conduzirei os cegos por caminhos que eles não conheceram, por veredas desconhecidas eu os guiarei; transformarei as trevas em luz diante deles e tornarei retos os lugares acidentados.”. O tão esperado Messias dos judeus e dos gentios chegou! A prova disso é que os cegos estão vendo. Jesus cura o homem cego e o manda para casa, dizendo: “Não entre no povoado!”. Aqui, chama a atenção o fato de que a condição final do homem simboliza a condição final que Jesus espera dos discípulos: visão total. O que os discípulos precisam ver totalmente? Eles precisam ver que Jesus é o Messias tanto dos judeus quanto dos gentios. Marcos deixa claro ainda que Jesus restaura completamente os desafortunados e nos chama a fazer o mesmo. Para a glória do Pai, em nome de Jesus e no poder do Espírito Santo, nós podemos ser instrumentos de transformação de vidas e de realidades. Para tal, faremos bem em começar com as pequenas demandas que nos são trazidas. De uma coisa podemos ter certeza: uma vez que Jesus entrou na História, não há história que não possa ser transformada por ele.
Que Deus, por sua graça, nos ajude a ver claramente!
Luiz Felipe Xavier.

terça-feira, 14 de março de 2017

Religiosidade morta ou espiritualidade viva?

Jesus foi alguém muito questionado pelos líderes religiosos do seu tempo. Ao longo do Evangelho de Marcos, isso acontece várias vezes. Jesus perdoa pecados e o questionamento é: ele tem poder para isso? Jesus come com publicanos e pecadores, e o questionamento é: ele toma as refeições com qualquer um? Jesus desencoraja temporariamente o jejum e o questionamento é: os seus discípulos não jejuam? Jesus aparentemente quebra o sábado e o questionamento é: os seus discípulos e ele fazem o que é proibido no sétimo dia? Jesus expulsa demônios e o questionamento é: ele está possuído por Belzebu? Em Marcos 7:1-23, os discípulos de Jesus comem sem lavar as mãos e o questionamento é: eles são impuros por isso? Tomando como base este texto, podemos afirmar que os discípulos de Jesus são aqueles que rompem com uma religiosidade morta e assumem uma espiritualidade viva. Eles são aqueles que passam por três profundas transformações.
Na primeira transformação, os discípulos passam da tradição religiosa ao exemplo de Cristo. Marcos começa a sua narrativa descrevendo um flagrante: os fariseus e os mestres da lei aproximam-se de Jesus e observam que seus discípulos comem sem lavar as mãos. Os mestres da lei ou escribas são aqueles que interpretam e aplicam a lei escrita de Moisés. Eles têm como referência a tradição oral dos líderes religiosos ou anciãos de Israel. Os fariseus, por sua vez, são aqueles que vivem de acordo com o ensino desses mestres da lei. Diz o texto que os fariseus e os mestres da lei flagram os discípulos de Jesus comendo sem lavar as mãos. Como Marcos está escrevendo a leitores gentios, ele explica-lhes a tradição oral dos líderes religiosos de Israel: antes de comer, é necessário lavar as mãos cerimonialmente. Além disso, é necessário se lavar ao chegar da rua, e lavar copos, jarros e vasilhas de metal. Logo, esses rituais de purificação refletem a convicção de que a fonte do mal é externa, ou seja, as impurezas vêm do contato com pessoas ou coisas impuras.
Tendo explicado a tradição oral dos líderes religiosos de Israel, Marcos apresenta a pergunta dos fariseus e dos mestres da lei a Jesus: “Por que os seus discípulos não vivem de acordo com a tradição dos líderes religiosos, em vez de comerem o alimento com as mãos ‘impuras’?”. Antes de considerarmos a resposta a essa pergunta, observemos que a espiritualidade viva baseia-se no exemplo de Cristo, não na tradição religiosa. Assim, faremos muito bem a nós mesmos e às nossas comunidades se relermos os Evangelhos observando como Cristo viveu a sua vida. Ao que parece, muitos de nós leem estas narrativas procurando saber somente como Cristo garantiu-nos a salvação e poucos de nós as leem procurando saber realmente como Cristo viveu a sua vida. Faremos bem se ampliarmos nossa leitura.
Na segunda transformação, os discípulos passam das regras dos homens aos mandamentos de Deus. Aqui, Jesus responde a pergunta dos fariseus e dos mestres da lei. Ele afirma: “Bem profetizou Isaías acerca de vocês, hipócritas; como está escrito: ‘Este povo me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. Em vão me adoram; seus ensinamentos não passam de regras ensinadas por homens’. Vocês negligenciam os mandamentos de Deus e se apegam às tradições de homens”. Que resposta dura! Primeiro, Jesus chama os fariseus e os mestres de lei de hipócritas. Um hipócrita é um ator, alguém que desempenha um papel. Ele não é, de fato, quem aparenta ser. Depois, Jesus responde aos fariseus e aos mestres da lei com as Escrituras. Citando Isaías 29:13, ele faz uma dupla denúncia. A adoração dos fariseus e dos mestres da lei é vã. Eles honram a Deus com os lábios, mas seu coração está longe dele. E os ensinos dos fariseus e dos mestres da lei são apenas regras ensinadas por homens. Eles negligenciam os mandamentos de Deus e se apegam às tradições humanas.
Tendo respondido a pergunta dos fariseus e dos mestres da lei, Jesus dá um exemplo. Nesse exemplo, os mandamentos de Deus são: “Honra teu pai e tua mãe” – uma ordem; e “Quem amaldiçoar seu pai e sua mãe será executado” – uma sanção. Como os fariseus e os mestres da lei negligenciam esses mandamentos de Deus e se apegam às tradições humanas? Praticando o Corbã. Aqui, Corbã é dedicar ao Senhor uma oferta que deveria ser utilizada para suprir as necessidades dos pais e, tendo feito isso, usar o valor dessa oferta consigo mesmo, sem sofrer a devida sanção por tal atitude perversa. Assim sendo, os fariseus e os mestres da lei negligenciam os mandamentos de Deus e se apegam às tradições humanas. Em contrapartida, a espiritualidade viva orienta-se pelos mandamentos de Deus. Jesus mesmo resumiu todos os mandamentos em apenas dois: ame a Deus e ame ao próximo. O nosso amor a Deus é expresso em obediência a ele e o nosso amor ao próximo é expresso em serviço a ele. Amemos!
Na terceira transformação, os discípulos de Jesus passam da limpeza exterior à purificação interior. Dirigindo-se a multidão, Jesus diz: “Ouçam-me todos e entendam isso: Não há nada fora do homem que, nele entrando, possa torná-lo ‘impuro’. Ao contrário, o que sai do homem é que o trona ‘impuro’. Se alguém tem ouvidos para ouvir, ouça!”. Na rua, ele conta esta parábola à multidão; em casa, ele a explica aos discípulos. Dessa explicação fica evidente que nada que entre no homem pode torná-lo ‘impuro’. Isso porque o que entra vai para o estômago, não para o coração, sendo depois eliminado. O que sai do homem é que o torna ‘impuro’, pois do interior do homem procede toda sorte de males.
Por fim, Jesus destaca alguns desses males do coração. Entre eles estão maus pensamentos ou imaginações más; imoralidades sexuais ou relações sexuais ilícitas; roubos ou subtrações de algo alheio; homicídios ou assassinatos; adultérios ou relacionamentos extraconjugais; cobiças ou desejos ávidos de ter cada vez mais; maldades ou planos perversos que visam prejudicar alguém; engano ou fraude em benefício próprio; devassidão ou libertinagem; inveja ou vontade de ser ou ter o que o outro é ou tem; calúnia ou difamação; arrogância ou orgulho; e insensatez ou tolice. Jesus afirma que todos esses males vêm de dentro e tornam o homem ‘impuro’. Portanto, somente a espiritualidade viva possibilita a nossa purificação interior. Essa purificação tem duas dimensões: uma preventiva e outra terapêutica. Preventivamente, nos purificamos pelo constante exercício de guardar o nosso coração. Guardamos o nosso coração quando guardamos as suas portas: nossos olhos e nossos ouvidos. Terapeuticamente, nos purificamos pelo constante exercício de nos lavar no sangue de Jesus. Quando pecamos, é para a cruz que corremos. Ali há toda a provisão de purificação de que necessitamos.
Que Deus nos ajude a desenvolver uma espiritualidade viva, uma espiritualidade que baseia-se no exemplo de Cristo, que orienta-se pelos mandamentos de Deus e que possibilita a uma real purificação interior!
Luiz Felipe Xavier.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Esperança em meio ao sofrimento

Nos capítulos 4 e 5 do Evangelho de Marcos, encontramos quatro milagres de Jesus. Esses milagres são uma “avant-première” (primeira apresentação) do Reino de Deus. No primeiro, Jesus acalma uma tempestade; no segundo, Jesus liberta um endemoninhado; no terceiro, Jesus cura uma mulher; e no quarto, Jesus ressuscita a filha de Jairo. Logo, observemos esses dois últimos milagres da perspectiva de Jairo.
Jesus é expulso da região dos gerasenos e volta de barco para a outra margem do lago. Ali, ele é acolhido por uma grande multidão. No meio dessa grande multidão estão duas pessoas que possuem muitas diferenças e uma semelhança. Um homem e uma mulher. O homem é identificado como Jairo e a mulher nem sequer é identificada. Jairo é o importante dirigente da sinagoga e a mulher é a insignificante excluída da sinagoga. Jairo é rico e a mulher tornara-se pobre. Jairo se aproxima de Jesus pela frente, de maneira extravagante, e a mulher se aproxima de Jesus por trás, de maneira discreta. Mas tanto Jairo quanto a mulher se aproximam de Jesus em sofrimento profundo e em total desesperança. Jairo tem uma filha única, de doze anos, que está morrendo. A mulher, há doze anos, sofre com uma hemorragia incurável. Assim, Jairo e a mulher têm em Jesus sua única e última esperança. Em situações de sofrimento profundo descobrimos que Jesus é a nossa única e última esperança. Nessas situações, precisamos tomar três atitudes.
A primeira atitude é aproximar-se de Jesus. Jairo aproxima-se, vê Jesus, prostra-se aos seus pés e o implora pela cura da sua filha. Jairo é um daqueles que conspiraram contra Jesus para matá-lo. Mas, agora, encontra-se em uma situação de sofrimento profundo. Ele nada pode fazer para salvar a vida da sua própria filha. Assim sendo, humilhado, Jairo decide aproximar-se de Jesus. “Minha filha está morrendo! Vem, por favor, e impõe as mãos sobre ela, para que seja curada e que viva”, Jairo pede a Jesus. Jesus ouve aquele pedido desesperado, não diz nada e vai com Jairo.
Assim como Jairo, em meio ao sofrimento, somos desafiados a aproximarmo-nos de Jesus. À medida que nos aproximamos dele, descobrimos que a humilhação do sofrimento pode trazer uma nova perspectiva sobre nós mesmos, sobre as pessoas e sobre a vida. Descobrimos também que o sofrimento profundo pode ser uma excelente oportunidade para nos aproximarmos de Deus. Descobrimos ainda que o silêncio temporário de Deus pode significar sabedoria ao invés de inoperância.
A segunda atitude é esperar por Jesus. Da beira do lago à casa de Jairo, Jesus é acompanhado pela multidão, que o comprime. No meio dessa multidão está uma mulher que sofre de hemorragia. Ela é impura. Isso porque em Lv. 15:25 está escrito: “Quando uma mulher tiver um fluxo de sangue por muitos dias fora da sua menstruação normal, ou um fluxo que continue além desse período, ela ficará impura enquanto durar o corrimento, como nos dias da sua menstruação.”. Conforme José Antonio Pagola, os enfermos da Galiléia consideravam o seu mal de um ponto de vista religioso: “Se Deus, o criador da vida, está retirando deles seu espírito vivificador, é sinal de que os está abandonando.”. Essa mulher se sente impura e abandonada, tanto por Deus quanto pela sociedade. Ela gasta tudo o que tem com médicos e só piora. Quando ouve falar de Jesus, ela pensa: “Se eu tão somente tocar em seu manto ficarei curada.”. Então, é exatamente isso que ela faz. No meio da multidão, chega por trás, toca no manto de Jesus e fica imediatamente curada. No mesmo instante, Jesus sente que dele sai poder, vira-se para a multidão e pergunta: “Quem tocou em meu manto?” Os discípulos pensam que essa pergunta é uma piada. Tremendo, a mulher se reaproxima, prostra-se e conta-lhe toda a verdade. Jesus declara: “Filha a sua fé a curou! Vá em paz e fique livre do seu sofrimento.”.
Aqui uma pergunta se faz necessária: o que Jairo está fazendo enquanto tudo isso acontece? Ele está esperando por Jesus. Enquanto a mulher curada não cabe em si de alegria, Jairo não cabe em si de aflição. Ele sabe que este “tempo perdido” pode custar a vida da sua filha. Assim como Jairo, em meio ao sofrimento, somos desafiados a esperar por Jesus. À medida que esperamos por ele, descobrimos que não somos os únicos que sofrem neste mundo. Descobrimos também que enquanto esperamos pela ação de Deus em nosso favor, ele permanece conosco. Descobrimos ainda que Deus nunca se atrasa, porém, faz tudo quando quer, como quer e a quem quer.
A terceira atitude é confiar em Jesus. Enquanto Jesus ainda está falando com a mulher, chegam algumas pessoas da casa de Jairo com a notícia que sua filha morreu e que, por isso, ele não precisa mais incomodar o mestre. Jesus, todavia, ignora completamente esta notícia e diz a Jairo: “Não tenha medo; tão somente creia.”. De agora em diante, só Pedro, Tiago e João seguem com Jesus. Eles chegam à casa de Jairo e encontram um alvoroço, com gente chorando e se lamentando em alta voz. Ao entrar na casa, Jesus faz uma pergunta provocante e uma afirmação chocante: “Por que todo este alvoroço e lamento? A criança não está morta, mas dorme.”. Ouvindo isso, aqueles que choravam começam a rir de Jesus. Jesus os expulsa da casa, toma consigo o pai e a mãe da criança, e os três discípulos que estavam com ele, e entra no lugar onde o corpo da menina fora colocado. Ali, Jesus a toma pela mão e declara: “Talita cumi!”, que significa “menina, eu lhe ordeno, levante-se!”. Ele usa a mesma expressão que uma mãe usa para acordar sua filha de manhã: “Menina, está na hora, levante!”. Ao ouvir estas doces palavras de Jesus, a menina se levanta e anda. Por fim, Jesus ordena a todos que não contem nada a ninguém e manda os pais darem comida à menina.
Assim como Jairo, em meio ao sofrimento, somos desafiados a confiar em Jesus. À medida que confiamos nele, descobrimos que enquanto o alívio do nosso sofrimento não chega, o que está ruim pode piorar. Descobrimos também que embora as más notícias afetem as nossas emoções, elas não podem afetar a nossa fé. Descobrimos ainda que o sofrimento faz parte da nossa história, contudo, jamais terá a palavra final.
Que Deus, por sua graça, renove a nossa esperança em meio ao sofrimento!

Luiz Felipe Xavier.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

O Reino de Deus cresce em nós e entre nós

No capítulo 4 do Evangelho de Marcos, encontramos diversas parábolas sobre o Reino de Deus. Parábola é uma estória contada com elementos da vida cotidiana para ilustrar um princípio espiritual. Jesus gostava tanto de parábolas que o evangelista declara: “Com muitas parábolas semelhantes Jesus lhes anunciava a palavra, tanto quanto podiam receber. Não lhes dizia nada sem usar alguma parábola. Quando, porém, estava a sós com os seus discípulos, explicava-lhes tudo.” (Mc. 4:33-34). Aqui nos deparamos com dois problemas. Primeiro: não temos acesso a todas as explicações de Jesus. Se tivéssemos, a interpretação das parábolas seria muito mais fácil. Segundo: a vida cotidiana de Jesus não é a nossa vida cotidiana. As distâncias que nos separam são enormes.
Diante desses dois problemas, o que podemos fazer? Nós podemos recordar as regras clássicas de interpretação das parábolas. Devemos ler as parábolas a partir dos seus contextos. Se o contexto histórico é a Palestina do século I, o contexto literário é a temática do Reino de Deus. Devemos também ler as parábolas de longe, olhando para o todo. Ou seja, não podemos ler as parábolas de perto, olhando para os detalhes. Devemos ainda ler as parábolas à procura do seu princípio espiritual. Na grande maioria delas, há um só princípio espiritual a ser encontrado.
Com já dito, as parábolas do capítulo 4 de Marcos tratam do Reino de Deus. O Reino de Deus é o governo de Deus. Deus governa de direito sobre toda a sua criação e de fato sobre tudo e sobre todos aqueles que estão sob a sua vontade. Logo, o Reino de Deus já está presente entre nós, mas ainda não em sua plenitude. Em quase tudo, os valores do Reino de Deus são opostos aos valores dos reinos deste mundo. É por isso que aqueles que entram no Reino de Deus pela porta do arrependimento e da fé são transformados, e recebem a missão de transformar o seu entorno. Assim, mesmo que não percebamos, o Reino de Deus está crescendo.
O Reino de Deus está crescendo em nós e entre nós. Em Marcos 4:26-32, encontramos dois aspectos desse crescimento. O primeiro aspecto enfatiza que o crescimento do Reino de Deus é automático (26-29). Este é o princípio espiritual da “Parábola da Semente”. Nessa parábola, Jesus compara o Reino de Deus ao processo agrícola. Como se dá esse processo? Ele inicia-se com a semeadura. Um homem “lança a semente sobre a terra”. O processo continua com o crescimento. Este, por sua vez, pressupõe tempo. As expressões “noite e dia” e “dormindo ou acordado” indicam exatamente isso. O crescimento também é desconhecido pelo homem. A semente germina e cresce “embora ele não saiba como”. O crescimento ainda é automático. Jesus diz: “A terra por si própria produz o grão: primeiro o talo, depois a espiga e, então, o grão cheio na espiga.”. No original, a expressão “por si própria” é autômatos, significando “o que move por impulso próprio” ou “o que age sem a instigação ou intervenção de outro”; “automático”. Aqui está o ponto: assim como o crescimento da semente é automático, o crescimento do Reino de Deus é automático. Por fim o processo encerra-se com a colheita. “Logo que o grão fica maduro, o homem lhe passa a foice, porque chegou a colheita.”.
O Reino de Deus cresce automaticamente em nós. Isso porque o Espírito Santo age oculta e poderosamente em nós. Quando isso acontece, nós recebemos o poder que nos capacita à obediência. Aos poucos, a nossa rebeldia dá lugar à submissão e experimentamos a vontade de Deus sendo feita em nós. O Reino de Deus também cresce automaticamente entre nós. Isso porque Deus age oculta e poderosamente entre nós. Muitas vezes nós nos perguntamos: por que as coisas são como são se o Reino de Deus já está presente entre nós? Todavia, a nossa pergunta deveria ser: como seriam as coisas se o Reino de Deus ainda não estivesse presente entre nós? Essa reflexão nos desafia à fé, ao amor e à esperança. Fé que se fundamente na certeza de que Deus está agindo; amor que nos move a agir como Deus está agindo; esperança que nos encoraja a seguir adiante na convicção de que Deus concluirá suas ações. Um dia o seu Reino será pleno.
O segundo aspecto enfatiza que o crescimento do Reino de Deus é grandioso (30-32). Este é o princípio espiritual da “Parábola do Grão de Mostarda”. Nessa parábola, Jesus compara o Reino de Deus ao grão de mostarda, que é a menor das sementes e torna-se a maior das hortaliças. Ele estabelece dois contrastes. O primeiro é entre menor e maior. O grão de mostarda é a “menor semente”. Contudo, torna-se a “maior de todas as hortaliças”. O segundo contraste é entre o pequeno e o grande. O grão de mostarda começa pequeno, cresce e torna-se grande. Tanto no mundo judeu quanto no grego-romano, o grão de mostarda é proverbialmente conhecido pelo seu pequeno tamanho. Entretanto, Jesus afirma que ele fica “com ramos tão grandes que as aves do céu podem abrigar-se à sua sombra”.
O Reino de Deus cresce grandiosamente em nós. Isso porque o Espírito Santo, que age em nós, promove o nosso crescimento espiritual. Crescemos espiritualmente à medida que somos conformados à imagem de Cristo. Esse ser conformado à imagem de Cristo é um processo gradual e progressivo. Tal processo começa com as pequenas transformações e chega às grandes transformações. O Reino de Deus também cresce grandiosamente entre nós. Isso porque Deus, que age entre nós, promove transformação integral. À medida que cresce, o Reino de Deus transforma tudo. Transforma doença em saúde, opressão em libertação, poder em serviço, ignorância em conhecimento, ganância em generosidade, acumulação em partilha, injustiça em justiça, violência em paz, tristeza em alegria, ódio em perdão, morte em vida e muito mais.
Que Deus, por sua maravilhosa graça, faça com que o seu Reino cresça em nós e entre nós!
Luiz Felipe Xavier.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Sinais da graça de Deus

Jesus é uma pessoa que, vez por outra, envolve-se em controvérsias. No início do Evangelho de Marcos, encontramos as chamadas “quatro controversas de Cafarnaum” (2:1-3:6). Na primeira, Jesus demonstra que o Filho do Homem tem na terra autoridade para perdoar pecados. Na segunda, ele demonstra que esta autoridade estende-se ao publicano Levi (ou Mateus) e aos seus amigos. Na terceira, ele demonstra que sua presença é semelhante a uma festa de casamento, quando a alegria é tão grande que não faz sentido jejuar. Na quarta, ele demonstra que é Senhor de tudo, até mesmo do sábado. Logo, Jesus revela-nos um Deus cheio de graça. Mais especificamente em Marcos 2:13-17, essa graça expressa-se através de dois sinais.
O primeiro sinal da graça é a inclusão que chama ao seguimento. Jesus está em Cafarnaum, no lago da Galiléia, ensinando uma grande multidão. Cafarnaum é um povoado modesto, com cerca de 600 a 1.500 habitantes. Em sua maioria, esses habitantes são pescadores e camponeses. Nesse povoado de pescadores e camponeses, há dois tipos de cobradores de impostos: os funcionários da aduana, que cobram das caravanas, e os funcionários do cais, que cobram dos pescadores. Esses cobradores de impostos são conhecidos como “publicanos”. No processo de cobrança de impostos pelos publicanos, há extorsão e enriquecimento ilícito. Assim, os publicanos são funcionários do Império Romano e opressores do povo de Israel. Por isso, um judeu publicano é considerado como um traidor e um inimigo; é odiado e marginalizado.
Ali, em Cafarnaum, Jesus passa pela coletoria de um publicano chamado Levi e lhe diz: “Siga-me”. Imaginemos esta cena... Jesus passa com Simão, André, Tiago e João, pescadores oprimidos que odeiam Levi e, num gesto totalmente inclusivo, o chama ao seguimento. Fato é que, seguindo os passos de Jesus, Levi será totalmente transformado.
Neste singelo “siga-me” de Jesus observamos que a graça de Deus é totalmente inclusiva. Ela alcança todo e qualquer tipo de pessoa. Observamos também que a graça de Deus nos chama ao seguimento de Jesus. Nesse seguimento, todo e qualquer tipo de pessoa pode ser transformado. Isso porque a graça que nos acolhe como somos é incapaz de nos deixar da mesma forma. Ela é uma graça transformadora.
O segundo sinal da graça é o perdão que chama à comunhão. O texto segue e, numa refeição na casa de Levi, muitos publicanos e “pecadores” estão à mesa com Jesus e seus discípulos. Os publicanos nós já conhecemos. Quem são os “pecadores”? Eles são pessoas de má fama, pessoas que se recusam a seguir a lei mosaica, tal como interpretada pelos mestres da lei. Jesus assenta-se à mesa com esses publicanos e “pecadores”. Ser recebido em uma mesa com o propósito de comer com outra pessoa é uma cerimônia ricamente simbólica de amizade, intimidade e unidade. Jesus assenta-se à mesa com este tipo de gente como um amigo. Não é sem razão que ele é chamado de “comilão e beberrão, amigos de publicanos e pecadores” (Lc. 7:34). É muito interessante notar que Jesus é amigo destas pessoas antes mesmo de vê-las transformadas.
Vendo Jesus à mesa com publicanos e “pecadores”, os mestres da lei, que eram fariseus, perguntam aos discípulos dele: “Por que ele come com publicanos e pecadores?”. Os fariseus ou “os separados” concebem a pessoa de Deus como totalmente santo e totalmente separado dos pecadores. Eles esperam por uma grande festa messiânica, da qual participarão somente os separados dos pecados e dos pecadores no tempo presente. Para os fariseus, este banquete final simboliza a grande salvação de Israel. Assim sendo, ouvindo a pergunta desses mestres da lei, Jesus afirma que não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes. Ele diz também que não vem chamar os justos, porém, os pecadores. Os que têm saúde são aqueles que se consideram justos ao passo que os doentes são aqueles que se consideram pecadores. Para esses doentes-pecadores, e só para eles, há perdão e comunhão. Então, Jesus está oferecendo o banquete da salvação aos marginalizados pelos religiosos do seu tempo.
Neste simbólico assentar-se à mesa de Jesus, observamos que a graça de Deus é totalmente perdoadora. Ela perdoa todo e qualquer tipo de pecado. Observamos também que a graça de Deus nos chama a comunhão com todo e qualquer tipo de pecador. Nessa comunhão, nossa referência é a santidade do próprio Jesus, aquele, sem acepção, chama à sua mesa todo tipo de gente.
Que Deus nos ajude a sinalizar sua maravilhosa graça neste mundo!
Luiz Felipe Xavier.

domingo, 18 de setembro de 2016

Pior cego é o que acha que vê

Pior cego é o que acha que vê

Marco 8:22-26

18 de setembro de 2016.

Luiz Felipe Xavier

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domingo, 28 de agosto de 2016

Religiosidade morta ou espiritualidade viva

Religiosidade morta ou espiritualidade viva

Marcos 7:1-23.

28 de agosto de 2016

Luiz Felipe Xavier

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