segunda-feira, 8 de julho de 2019

SEGUNDO CONGRESSO NACIONAL DE MIQUEIAS BRASIL - OLHAR RETROSPECTIVO

O Segundo Congresso Nacional de Miqueias Brasil aconteceu entre os dias 24 e 27 de junho de 2019, na cidade de Salvador, Bahia. Irmãos e irmãs de todas as regiões país se reuniram para refletir sobre o seguinte tema: Vim para que tenham vida – a ação da Igreja na construção da vida plena. Esta reflexão se deu em torno de três eixos principais: equidade, espiritualidade e resiliência.

O que segue é um olhar retrospectivo do que vivenciamos ali. Mas, antes, é importante considerar duas limitações e duas observações. A primeira limitação é da presença. O conteúdo abaixo se refere apenas às falas que estive presente. A segunda limitação é da afetação. O que escrevo corresponde à forma como fui afetado pelo que ouvi.

A primeira observação é que, por sua diversidade, estão de fora os conteúdos das várias oficinas. Essas aconteceram no início de cada tarde. E a segunda observação é que, pela dimensão mais testemunhal, também estão de fora os compartilhamentos das ações que sinalizam o Reino de Deus em diversos contextos brasileiros. De modo geral, esses testemunhos encerravam a programação de cada dia, enchendo-nos de gratidão e de encorajamento para o que viria a seguir. Passemos às impressões.

Redescobrimos que a espiritualidade de Jesus de Nazaré se expressa no levantar os caídos nas estradas da vida.

Refletimos que a equidade se faz necessária diante de uma realidade marcada pela injustiça. Ela é uma ação de reparação que nasce do amor de Deus que respiramos e que transpiramos.

Recordamos que “na origem da desigualdade está a propriedade.” (Rousseau). Porém, a realidade da criação de Deus é marcada por igualdade, complementaridade e dignidade. Logo, Deus é o fiel da balança que equilibra as relações humanas. Por isso, a conversão a Cristo é também uma conversão aos despossuídos deste mundo. Todavia, lamentavelmente, a desigualdade é um pecado naturalizado na grande maioria das nossas instituições, sejam elas religiosas ou não.

Ao que parece, as pessoas querem a ideia de fazer algo e não o fazer concreto. Isso nos coloca diante de um desafio: fazer exegese bíblica séria e ter uma prática social coerente.

Relembramos que, em um primeiro momento, os Direitos Humanos enfatizaram a liberdade e as condições necessárias para tal. Dignidade, universalidade, inalienabilidade, indivisibilidade, inter-relacionalidade e interdependência eram suas marcas. Com o passar do tempo, à liberdade foram somadas a igualdade, a fraternidade, a pluralidade (de opinião e de participação) e a dignidade (a vida e a paz).

Apesar da pluralidade do movimento evangélico brasileiro, há pelo menos três discursos que o perpassam: o da prosperidade, o da integralidade e o da integridade (este último, o mais recente).

Reconhecemos que a conjuntura atual é marcada tanto por um capitalismo de vigilância (Zuboff N.) quanto por um populismo autoritário (Demirovic A.). Assim, estamos frente a outro desafio: ensinar sobre redes sociais e mídias digitais,  lembrando sempre que informação não é sinônimo de conhecimento. É assustador saber que, depois do Google, com informações sobre todos os seus usuários, há abordagens específicas direcionadas a todos e a cada um deles.

Hoje, o grande problema é que o capitalismo entende que não dá para atender a todas as pessoas. Assim sendo, é preciso eliminar algumas: as pobres. Para um aprofundamento dessa temática, recomenda-se a leitura de dois livros do professor Dr. Jung Mo Sung: 1) A graça de Deus e a loucura do mundo; 2) Idolatria do dinheiro e Direitos Humanos. Consequentemente, ser pobre passa a ser “crime” e as políticas sociais deixam de existir. Isso nos coloca diante de uma importante questão: quais são as políticas sociais que precisam ser fomentadas pela Igreja? Vale ressaltar que Igreja e Universidade são dois espaços de resistência, de re-existência (uma dimensão alternativa de temporalidade) e de comunidade (um espaço de crítica). Infelizmente, ao que parece, de agora em diante no nosso pais, os Direitos Humanos se restringirão à liberdade individual. É tanto um reducionismo quanto um retrocesso!

Retomamos a vida, a justiça e a liberdade como eixos bíblicos estruturantes. No Magnificat, mais especificamente, fizemos teologia com Maria. Isso se deu a partir de duas dimensões. A primeira dimensão foi teológica. Por graça, Deus, que é, visita quem não é em sua condição de “ninguendade”. O Senhor de Maria é Deus, o Salvador. Ele vai onde ninguém vai. Esse Deus é também Poderoso e Santo. Ele manifesta sua misericórdia na história. Aqui, um detalhe importante: toda teologia é produto do seu espaço e do seu tempo. A segunda dimensão é missiológica. Deus dispersou os arrogantes. O seu imponderável aconteceu em Nazaré da Galiléia. Deus derruba os poderosos e despede de mãos vazias os ricos. Aqui, outro detalhe importante: onde há mais desigualdade social, há mais violência. Então, nas questões atuais do nosso país, a igreja de Jesus deve se posicionar ao lado da justiça e ao lados dos empobrecidos.

Rememoramos que resiliência é um termo da física. Refere-se à capacidade de retorno da matéria ao seu estado inicial, depois de passar por situações extremas. Portanto, de forma simples, resiliente é o que enverga, mas não quebra. Por razões óbvias, só quem lida com situações extremas de tensão e de compressão tem a capacidade de desenvolver resiliência.

Dentre outros, há três textos de Paulo que tratam desta temática. O primeiro é Filipenses 4:11-13. Em Deus que nos fortalece, é possível passar por situações adversas. O segundo é 2 Coríntios 4:8-12. Causas exógenas não podem afetar nossas convicções endógenas. E o terceiro é Romanos 8:35-39. Sobre todas as coisas, as que controlamos e as que não controlamos, somos mais que vencedores. Logo, através dos processos de resiliência que nos ensinam competências e habilidades, o nosso propósito na vida é gerar mais vida. Contudo, é o amor, acima de tudo, não as dificuldades, que nos torna aptos para a vida. Isso porque Deus formou, a queda deformou e a resiliência transforma.

Recobramos a espiritualidade como o mistério da presença divina que abre possibilidades, que traz para a nossa temporalidade outras temporalidades. Essa espiritualidade nos humaniza. Ela é o sopro de Deus sobre nós e em nós.

Nós vivemos em tempo de despertar de espiritualidades. Isso porque não damos conta das realidades que criamos. Assim, discernir o nosso tempo, de angústia, de desesperança e de cansaço, é o nosso desafio. O problema é que nós parecemos estar cansados de nós mesmos.

Ao que tudo indica, a era do humanismo está chegando ao fim. Neste crepúsculo, o capitalismo se transformou na primeira teologia secular global (com suas noções de liberdade, de competição e de mercadoria). Agora, o deus Mercado domestica tudo.

Diante deste cenário, a espiritualidade cristã sofre a realidade e abraça os desesperados. O discípulo de Jesus é aquele ou aquela que discerne tudo espiritualmente para o bem do outro, do próximo. Ou seja, nós discernimos a realidade a partir da dor. O Deus a quem servimos olha, por exemplo, para Oscar e Valéria, mortos na margem do rio, e chora (FOTO). Esse Deus não foge da realidade, da gente e do sofrimento.


Assim sendo, só há uma espiritualidade cristã: a da justiça. Deus se revela no meio da dor, pronuncia sua palavra e traz esperança. Por isso, falar de espiritualidade da justiça é falar de Jesus de Nazaré, de tudo o que ele assume sobre e para si. O nosso Salvador e Senhor bebe dos profetas, e estes sonham e anunciam a justiça. Consequentemente, as Escrituras estão grávidas da justiça de Deus e Jesus é a sua encarnação.

O produto da justiça é o shalom de Deus. É digno de nota que tudo que é bom e belo nas Escrituras fala da justiça. O problema é que parte da igreja de Jesus domesticou as Escrituras. Esses irmãos e irmãs precisam, urgentemente, redescobrir os profetas e sua mensagem da justiça de Deus. Esta redescoberta traz consigo a esperança. Isso porque quando falamos da justiça, nós nos encontramos com o Deus da justiça.

Por fim, genuína indignação e sede de justiça devem tomar o nosso coração. Fomos mais uma vez convidados a assumir Jesus de Nazaré e suas convicções mais profundas. Animados pela ressurreição do corpo de Cristo, podemos seguir adiante contra todas as formas da morte.

Certamente, cada um que esteve ali e tomou nota do que ouviu poderia enriquecer em muito estas impressões. De uma coisa estou certo: nós ouvimos a voz de Deus. Que ele mesmo, pelo poder do seu Espírito, nos conduza à ação!

Luiz Felipe Xavier

terça-feira, 30 de abril de 2019

HOJE, ELE COMPLETARIA 100 ANOS...


Se estivesse vivo, meu avô Wilson completaria 100 anos hoje.

Ele foi uma das pessoas mais fantásticas que já conheci. Sua luta coerente por justiça social e por igualdade me marcaram e me encorajam na vida.

Ícho, era assim que eu o chamava, você faz muita falta. Há quase 16 anos você nos deixou e, até hoje, a saudade que sinto de você chega a doer. Em breve, estaremos juntos por toda a eternidade. 

Seu primeiro neto, Luiz Felipe.

quarta-feira, 6 de março de 2019

A QUE COMPARAREMOS O REINO DE DEUS?


Certa vez, Jesus contou duas parábolas: a do Grão de Mostarda e a do Fermento (Lc. 13:18-21). Essas duas parábolas tratam do Reino de Deus. Em poucas palavras, o Reino de Deus é o governo de Deus. Deus governa de direito sobre toda a sua criação e de fato sobre tudo e sobre todos aqueles que estão sob a sua vontade. Logo, o Reino de Deus já está presente em nós e entre nós, mas ainda não em sua plenitude. A boa notícia é que esse Reino está acessível a todos que se arrependem e creem. Em quase tudo, os valores do Reino de Deus são opostos aos valores dos reinos deste mundo. É por isso que aqueles que entram nesse Reino são transformados e recebem a missão de transformar o seu entorno. Assim, mesmo que não percebamos, o Reino de Deus está crescendo. Nas parábolas do Grão de Mostarda e do Fermento, encontramos dois aspectos desse crescimento.

O crescimento do Reino de Deus é grandioso.

Este é o princípio espiritual da Parábola do Grão de Mostarda. Nessa parábola, Jesus compara o Reino de Deus ao grão de mostarda que um homem semeou em sua horta. No relato de Lucas, Jesus estabelece apenas um contraste entre o pequeno e o grande. Um grão de mostarda cresce e se transforma em uma árvore. Tanto no mundo judeu quanto no mundo grego-romano, o grão de mostarda é proverbialmente conhecido pelo seu pequeno tamanho. Contudo, Jesus diz que ele “cresceu e se tornou uma árvore, e as aves do céu fizeram ninhos em seus ramos”. Nos relatos de Mateus e Marcos, Jesus estabelece outro contraste entre menor e maior. O grão de mostarda é a “menor semente”, entretanto, torna-se a “maior de todas as hortaliças”. Parafraseando as palavras de Jesus nesta parábola, George E. Ladd declara: “Não deixe que a aparente irrelevância o engane. Não desanime. Virá o tempo em que esse mesmo Reino de Deus, agora presente como uma semente minúscula, será um grande arbusto, tão grande que as aves do céu virão e se alojarão em seus ramos.”.
O Reino de Deus cresce grandiosamente em nós... Isso porque o Espírito Santo promove o nosso crescimento espiritual. Crescemos espiritualmente à medida que somos conformados à imagem de Cristo. Esse ser conformado à imagem de Cristo é um processo gradual e progressivo. O Reino de Deus também cresce grandiosamente entre nós... Isso porque Deus promove transformação integral. À medida que cresce, o Reino de Deus vai transformando tudo.

O crescimento do Reino de Deus é oculto

Este é o princípio espiritual da Parábola do Fermento. Nessa parábola, Jesus compara o Reino de Deus ao fermento que uma mulher misturou com uma grande quantidade de farinha. Sobre isso, José A. Pagola comenta: “Todas as semanas, na véspera do sábado, as mulheres se levantavam cedo e saíam ao pátio para fazer o pão. Antes do amanhecer, já estavam preparando a massa, introduziam depois o fermento fresco para fermentá-la, cobriam tudo com um pano de lã e esperavam que a massa crescesse lenta e silenciosamente. Enquanto isso acendiam o fogo e esquentavam a pedra sobre a qual assariam o pão. Da cama, os filhos podiam sentir o aroma inconfundível dos pães preparados amorosamente por suas mães. Jesus não havia esquecido esta cena familiar.”.
Depois de algum tempo, o resultado de se misturar fermento com farinha é uma massa fermentada. Aqui, Jesus estabelece mais um contraste, desta vez, entre o oculto e o revelado. O fermento age sobre a farinha de maneira oculta. Somente a massa toda fermentada é que revela esta ação. Assim também é a ação do Reino de Deus. Como fermento opera na massa de maneira irreversível, o Reino de Deus opera neste mundo de maneira irreversível. Comentando esta parábola, Ladd afirma: “Aqui, fermento não se refere ao mal. Ilustra a verdade de que o Reino de Deus, por vezes, parece ser uma coisa pequena, irrelevante. O mundo pode desprezá-lo e ignorá-lo. O que um carpinteiro galileu e uma dúzia de judeus poderia realizar? Mas não desanimem, dia virá em que o Reino de Deus ocupará toda a terra, da mesma forma que o fermento enche toda a tigela. Os propósitos de Deus não serão frustrados.”.
O Reino de Deus cresce ocultamente em nós... Isso porque o Espírito Santo potencializa as nossas pequenas ações em relação à vontade de Deus. À medida que essas pequenas ações são potencializadas, grandes transformações acontecem. Ao longo de todo esse processo, podemos discernir a ação oculta de Deus e celebrar cada mudança, por menor que seja. O Reino de Deus também cresce ocultamente entre nós... Isso porque Deus nos envia como agentes de transformação deste mundo. Neste sentido, José A. Pagola nos desafia a agir “como ‘fermento’ que introduz no mundo a sua verdade, sua justiça e seu amor de maneira humilde, mas com força transformadora. Nós, seguidores de Jesus não podemos apresentar-nos nessa sociedade como ‘de fora’, tratando de impor-nos para dominar e controlar aqueles que não pensam como nós. Devemos viver ‘dentro’ da sociedade, compartilhando as incertezas, crises e contradições do mundo atual, e trazendo nossa vida transformada pelo Evangelho. Temos de aprender a viver nossa fé ‘em minoria’ como testemunhas fiéis de Jesus. O que a igreja precisa não é de mais poder social ou político, mas de mais humildade para deixar-se transformar por Jesus e poder ser o fermento de um mundo mais humano.”.

Que o Reino de Deus cresça em nós e entre nós!

Luiz Felipe Xavier.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

VIVENDO SOB O DOMÍNIO DA GRAÇA

A Parábola dos Trabalhadores da Vinha está presente apenas em Mateus e, neste Evangelho, é a única que se encontra na viagem de Jesus da Galiléia à Judéia. Ela é uma ilustração da inversão que se dá no Reino dos Céus ou Reino de Deus. Nesse Reino, os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos. Isso porque, dentre outras coisas, o Reino dos céus ou Reino de Deus é o domínio da graça, da gratuidade. Para vivermos sob esse domínio, precisamos superar três tendências muito comuns em nós mesmos e no nosso entorno.

Tendência ao mérito

Jesus começa a Parábola dos Trabalhadores da Vinha comparando o Reino dos céus a um proprietário que sai para contratar trabalhadores para a sua vinha. Esses trabalhadores estão na praça, esperando por alguém que os contrate por um dia. O expediente diário é de doze horas, de seis da manhã a seis da tarde, de sol a sol. Por essas doze horas de trabalho recebe-se um denário, o salário de um dia. O proprietário contrata trabalhadores em cinco momentos. Às 06h, o combinado é pagar um denário pelo trabalho. Às 09h, o combinado é pagar o que for justo. Às 12 e às 15h, o combinado é o mesmo: pagar o que for justo. E, às 17h, não há combinado.  Os trabalhadores da primeira contratação esperam receber um denário. Os trabalhadores das demais contratações esperam receber as frações de um denário, proporcionais às horas dedicadas. Ou seja, todos esperam receber de acordo com os seus méritos.
A nossa tendência a viver sob o domínio dos méritos nos impede de viver sob o domínio da graça. Quase tudo no nosso entorno opera na lógica do mérito-retribuição (p. ex.: aprovações, contratações, promoções, etc.). E como vivemos sob o domínio do mérito, tendemos a transferir esse domínio à nossa relação com Deus. Porém, em assim fazendo, estamos impedidos de viver sob o domínio da graça. A boa notícia é que Deus não nos trata segundo os nossos méritos. Assim sendo, a relação dele conosco é baseada na graça, expressão do seu amor constante.

Tendência à comparação

Por volta das 18h, ao cair da tarde, o dono da vinha diz ao seu administrador que chame os trabalhadores e pague-lhes o salário. Até aqui, tudo bem. Daqui em diante, uma grande surpresa. A orientação do proprietário ao seu administrador quanto ao pagamento é a seguinte: comece com os últimos contratados e termine com os primeiros – essa é a surpresa. Ele deseja que os que foram contratados primeiro observem o pagamento dos que foram contratos por último. Imaginemos a cena... “Trabalhadores contratados às 17h: um denário.” Os contratados às 06h. fazem contas. “Trabalhadores contratados às 15h: um denário.” Os contratados às 06h olham uns para os outros. “Trabalhadores contratados às 12h: um denário.” Os contratados às 06h são tomados por incompreensão. “Trabalhadores contratados às 09h: um denário.” Os contratados às 06h, ficam apreensivos. “E trabalhadores contratados as 06h: um denário.” Diz o texto que estes “esperavam receber mais”. Se o combinado foi um denário, por que eles esperam receber mais? Porque eles se comparam com os outros. Eles se consideram merecedores de um salário superior ao dos outros.
A nossa tendência a viver sob o domínio da comparação nos impede de viver sob o domínio da graça. Quase tudo no nosso entorno opera também na lógica da comparação-superação. E como vivemos sob o domínio da comparação, tendemos a transferir esse domínio à nossa relação com o nosso próximo. Todavia, em assim fazendo, estamos impedidos de viver sob o domínio da graça. A boa notícia é que somos todos iguais diante de Deus. Consequentemente, a nossa relação com o nosso próximo é baseada na graça, expressa no alegrar-se com os que se alegram.

Tendência à ingratidão

Quando recebem o seu denário, os trabalhadores contratados às 06h começam a se queixar do proprietário da vinha. Ao invés de serem tomados por gratidão, são tomados por ingratidão. Essa ingratidão é traduzida em palavras: “Estes homens contratados por último trabalharam apenas uma hora, e o senhor os igualou a nós, que suportamos o peso do trabalho e o calor do dia”. Estaria o proprietário da vinha sendo injusto com os trabalhadores que foram contratados às 06h? A resposta é: não. Isso porque, como diz o ditado, o que é combinado não é caro. Estaria, então, o proprietário da vinha sendo justo com os trabalhadores que foram contratados nas demais horas do dia? A resposta também é: não. Isso porque justo seria pagar as frações de horas trabalhadas. Se o proprietário não está sendo justo, o que ele está sendo? A resposta é: gracioso. A graça transcende a justiça. Isso fica evidente na sua resposta aos trabalhadores queixosos: “Amigo, não estou sendo injusto com você. Você não concordou em trabalhar por um denário? Receba o que é seu e vá. Eu quero dar ao que foi contratado por último o mesmo que dei a você. Não tenho o direito de fazer o que quero com o meu dinheiro? Ou você está com inveja porque sou generoso?” A graça do proprietário é expressa em generosidade aos que foram contratados por último. Por isso, Jesus conclui a parábola com as seguintes palavras: “Assim, os últimos serão primeiros, e os primeiros serão últimos”.
A nossa tendência a viver sob o domínio da ingratidão nos impede de viver sob o domínio da graça. Quase tudo no nosso entorno opera ainda na lógica da ingratidão-obrigação. E como vivemos sob o domínio da ingratidão, tendemos a transferir esse domínio à nossa relação com Deus e com o próximo. Contudo, em assim fazendo, estamos impedidos de viver sob o domínio da graça. A boa notícia é que somos todos alvos da bondade de Deus. Portanto, a nossa relação com ele e com o próximo é baseada na graça, expressa em obediência e serviço.

Que Deus nos ajude a viver sob o domínio da graça!

Luiz Felipe Xavier.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

O PAI DE JESUS E NOSSO PAI

A Parábola dos Lavradores Maus está presente em Mateus, Marcos e Lucas. Embora os relatos dos três evangelistas sejam diferentes, sua mensagem é única: uma vinha é arrendada; o dono envia seus servos e estes são maltratados; o dono envia seu filho; este é assassinado; a vinha é dada a outros. Nos três Evangelhos, ela se encontra no mesmo contexto, a saber, na última semana de Jesus em Jerusalém. Nessa última semana, os conflitos com os líderes religiosos de Israel se intensificam e culminam na prisão e morte de Jesus. De todas as parábolas que ele contou, essa é a única que possui um conteúdo explicitamente cristológico. Nela, enquanto conta a sua própria história, Jesus nos revela três atributos do seu Pai e nosso Pai.

Paciência

Certo homem planta uma vinha, a arrenda e se ausenta. É possível que Jesus tenha em mente a Canção da Vinha de Isaías 5:1-7. Nessa canção, Deus planta uma vinha e espera que ela dê uvas boas. Mas, contrariando todas as suas expectativas, ela só dá uvas azedas. De acordo com o profeta Isaías, essa vinha é o povo de Deus. As uvas boas que Deus espera são justiça e retidão. As uvas azedas que o povo dá são violência e sofrimento. Ao que parece, entre a Canção da Vinha e a Parábola dos Lavradores Maus há dois elementos comuns e dois novos. Os elementos comuns são Deus como o proprietário da vinha e esta como o povo de Deus. Os elementos novos são os arrendatários, que correspondem aos líderes de Israel, e o filho amado, que corresponde a Jesus.
Na época da colheita, o proprietário envia o primeiro servo para receber parte do fruto. Os arrendatários o espancam e o mandam embora sem nada. O proprietário envia o segundo servo. Os arrendatários o espancam, o humilham e o mandam embora sem nada. O proprietário envia o terceiro servo. Os arrendatários o ferem e o expulsam da vinha. Este tratamento violento dos arrendatários em relação aos três servos do proprietário é semelhante ao tratamento violento de Jerusalém em relação aos profetas e aos enviados de Deus. Apesar de tudo, o proprietário continua paciente. Com isso, Jesus deixa claro que o nosso Pai é muito paciente. Esta paciência é evidenciada na sua persistência em relação a nós.

Amor

A parábola segue e o proprietário da vinha diz a si mesmo: “Que farei? Mandarei meu filho amado; quem sabe o respeitarão”. Aqui, a expressão “filho amado” merece destaque. No Evangelho de Lucas, essa expressão aparece três vezes: no batismo de Jesus, na sua transfiguração e aqui. Logo, a expressão “filho amado” parece ser uma clara referência a Jesus, o enviado do Pai ao mundo. Vale ressaltar que este envio encontra-se no centro da parábola. Porém, objetivando tomar posse da herança do filho, os arrendatários lançam-no fora da vinha e matam-no. Nesta descrição estão implícitos dois importantes aspectos relacionados à pessoa de Jesus. O primeiro é a encarnação. O Filho é enviado pelo Pai ao mundo. O segundo é a expiação. O Filho será morto pelos pecados da humanidade. Com isso, Jesus também deixa claro que o nosso Pai é muito amoroso. Este amor é evidenciado na sua misericórdia e na sua graça para conosco.

Zelo

A parábola termina com uma pergunta e com uma resposta. A pergunta é: o que lhes fará então o dono da vinha? No passado e no presente, ele tem agido com paciência e com amor. A resposta é: virá, matará aqueles lavradores e dará a vinha a outros. No futuro, ele agirá com juízo contra esses lavradores. Ao que parece, porque os líderes de Israel não correspondem à expectativa de Deus em relação a eles, a liderança do povo de Deus será retirada deles e dada a outros líderes. Nisso consiste o juízo. Esses outros líderes são aqueles que se submetem à autoridade de Jesus e dão frutos ao seu Pai. Em reação, o povo diz: “Que isso nunca aconteça!”. Olhando fixamente para eles, Jesus lança mão do Salmo 118:22 para aplicar a mensagem da parábola. Ele afirma: “Então, qual é o significado do que está escrito? ‘A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular’. Todo o que cair sobre esta pedra será despedaçado, e aquele sobre quem ela cair será reduzido a pó”.
Por um lado, partindo dessa aplicação, fica evidente que a atitude em relação a Jesus no presente determinará a situação dos líderes religiosos no futuro. Ou seja, uma vez que estes o rejeitam, sofrerão o juízo. Por outro lado, também fica claro que o povo deve se submeter a Jesus e dar frutos ao seu Pai. Aqui está o princípio espiritual da parábola! A atitude que o Pai espera do seu povo é a submissão ao seu Filho. O texto termina com esses líderes religiosos – mestres da lei e chefes dos sacerdotes – vestindo a carapuça. Eles percebem que Jesus está falando contra eles e, por isso, procuram encontrar um meio de prendê-lo. Todavia, ainda não podem fazer isso porque temem ao povo. Quando puderem, estarão apenas confirmando as palavras dessa parábola. Com isso, Jesus ainda deixa claro que o nosso Pai é muito zeloso. Este zelo é evidenciado pela liderança espiritual à qual ele delega o nosso cuidado.

Por fim, uma pergunta: por que é importante conhecer os atributos do nosso Pai? Porque a nossa concepção sobre ele determinará a maneira como nos relacionaremos com ele. O nosso Pai é paciente, amoroso e zeloso. Que assim possamos concebê-lo e que assim nos relacionemos com ele!

Luiz Felipe Xavier.

sábado, 17 de novembro de 2018

TRANSFORMANDO INDIFERENÇA EM COMPAIXÃO

Viajando da Galiléia à Judéia, Jesus ensina muitas coisas. Dentre elas, ensina que só há dois modos possíveis de vida: o viver baseado no amor ao Dinheiro (Mamom – um deus fake) ou o viver baseado no amor a Deus. O primeiro modo é marcado por ansiedade, por ganância e, como veremos, por indiferença. O segundo modo é marcado por fé, por generosidade e, como também veremos, por compaixão. A nós, resta a pergunta: Como temos vivido, amando a Deus ou ao Dinheiro? Os discípulos de Jesus são aqueles que vivem baseados no amor a Deus, transformando indiferença em compaixão. Para tal, eles precisam desenvolver três percepções.

A percepção do necessitado

A parábola começa com a descrição dos seus personagens principais: o rico e Lázaro. O rico se veste de púrpura e de linho fino, e vive no luxo todos os dias. Ele é coberto por vestes caríssimas e tem abundância de comida diariamente. O mendigo Lázaro é coberto de chagas e anseia comer o cai da mesa do rico. Ele é coberto por feridas e tem escassez de comida. Três detalhes chamam a atenção na descrição dos personagens. Primeiro, há um portão que separa o rico e Lázaro. Sobre esse texto, José Antonio Pagola comenta: “O olhar penetrante de Jesus está desmascarando a realidade. As classes mais poderosas e os estratos mais miseráveis parecem pertencer à mesma sociedade, mas estão separados por uma barreira invisível: essa porta que o rico nunca atravessa para aproximar-se de Lázaro.”. Segundo, Lázaro é nomeado, mas o rico não. Em todas as parábolas de Jesus, o único personagem nomeado é Lázaro. O nome “Lázaro” significa “aquele a quem Deus ajuda”. Na parábola, vemos que o significado do nome corresponde à situação vivida pelo personagem. Terceiro, os cães se importam com Lázaro, porém, o rico não. Levando em consideração o contexto da época, Kenneth Bailey sugere que esses cães são os cães de guarda da casa do rico. Eles se alimentam do que cai da mesa do seu dono, Lázaro não. Mais do que isso, eles se importam com Lázaro, seu dono não. Aqui, o que mais nos interessa é que Jesus denuncia a indiferença do rico em relação a Lázaro, o necessitado que diariamente é colocado à sua porta e ele não vê. Logo, como discípulos de Jesus, somos desafiados a perceber o necessitado. Uma vez que vivemos numa espécie de “bolha”, os pobres podem ser para nós invisíveis.

A percepção da morte

A parábola segue e chega o dia em que tanto o rico quanto Lázaro morrem. O mendigo Lázaro morre e é levado pelos anjos para junto de Abraão. O “seio de Abraão” é interpretado como o lugar pós-morte dos justos. Ou seja, estar junto de Abraão é estar em um lugar de bem-aventurança a espera da vindicação eterna. O texto não explica porque Lázaro vai para o “seio de Abraão”; ao que parece, é porque ele confia em Deus e na sua ajuda (uma possível referência ao seu nome). O rico também morre, é sepultado e acha-se no Hades. O Hades é interpretado como o lugar pós-morte dos injustos. Isto é, estar no Hades é estar em um lugar de tormento a espera do juízo final. O texto também não explica porque o rico vai para o Hades; ao que parece, é porque ele confia em si mesmo e nas suas riquezas, e não se importa com o necessitado (uma possível referência à sua ostentação e à sua indiferença). Aqui, o que mais nos interessa é que, depois da morte inevitável, a barreira invisível que separava o rico e Lázaro torna-se um abismo intransponível e definitivo. Assim, como discípulos de Jesus, somos desafiados perceber a morte. Não faz sentido vivermos acumulando e ostentando porque a morte é uma realidade inevitável. Além disso, a vida de acumulação e ostentação é autocentrada (centrada em nós mesmos), ao passo que vida que Jesus nos propõe é altercentrada (centrada no próximo). Quem são os necessitados que estão próximos a nós e como podemos ajudá-los efetivamente?

A percepção da Palavra

A parábola se encerra com um diálogo entre o rico e Abraão. Esse diálogo começa com o rico usando a expressão que é própria dos mendigos: ‘Pai Abraão, tem misericórdia de mim (...)’ – nos lembramos da expressão de Bartimeu, o cego mendigo. O rico deseja que Abraão mande Lázaro aliviar parte do seu sofrimento. Em resposta ao rico, Abraão anuncia uma inversão: Durante a vida, o rico recebeu coisas boas e Lázaro recebeu coisas más; agora, Lázaro está sendo consolado e o rico está em sofrimento. Pior do que isso, como já dito, há entre eles um abismo intransponível e definitivo. Em resposta a Abraão, o rico expressa um novo desejo: Ele quer que Abraão mande Lázaro avisar seus irmãos sobre a sua situação para que eles se arrependam e tenham um destino diferente do seu. Notem: Mesmo em sofrimento, a fala do rico tem um tom arrogante e autocentrado. Em resposta ao rico, Abraão é incisivo: ‘Eles têm Moisés e os Profetas; que os ouçam’. Tanto Moisés quanto os profetas são claríssimos em relação à compaixão que o povo de Deus deve ter com os necessitados. Por exemplo: “Quando fizerem a colheita da sua terra, não colham até as extremidades da sua lavoura, nem ajuntem as espigas caídas de sua colheita. Não passem duas vezes pela sua vinha, nem apanhem as uvas que tiverem caído. Deixem para o necessitado e para o estrangeiro. Eu sou o SENHOR, o Deus de vocês. (...)” (Lv. 19:9-10). ““O jejum que desejo não é este: soltar as correntes da injustiça, desatar as cordas do jugo, pôr em liberdade os oprimidos e romper todo jugo. Não é partilhar sua comida com o faminto, abrigar o pobre desamparado, vestir o nu que você encontrou, e não recusar ajuda ao próximo? (...)”.” (Is. 58:6-7). Em resposta a Abraão, o rico insiste que se alguém ressuscitasse dos mortos e fosse até eles, eles se arrependeriam. Por fim, em resposta ao rico, Abraão reforça: ‘Se não ouvem a Moisés e aos Profetas, tampouco se deixarão convencer, ainda que ressuscite alguém dentre os mortos’. Aqui, o que mais nos interessa é que ouvir a Palavra é sinônimo de obedecer a Palavra. Assim sendo, como discípulos de Jesus, somos desafiados a perceber a Palavra. Essa Palavra que é claríssima: Sejam compassivos com os necessitados. Todavia, a nossa tendência é levantar objeções que justifiquem a nossa desobediência. Em assim fazendo, resta-nos o arrependimento, o discernimento, a sabedoria e a ação.

Que Deus, por sua graça, nos encha de compaixão para com os necessitados!

Luiz Felipe Xavier.

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

CHOCADO

Esta é a palavra que traduz o meu sentimento neste momento.

A quantidade de votos que o Bolsonaro recebeu é impensável e inimaginável.

Até pouquíssimo tempo atrás, quem pensaria e imaginaria que alguém como ele poderia ser votado por tanta gente?

...

Ao longo do primeiro turno das eleições, conversei com muitas pessoas.

Muitas destas conversas foram com eleitores do Bolsonaro.

Por incrível que pareça, não conheço uma pessoa sequer que votou nele por ele mesmo e por suas propostas.

NENHUMA!

A razão é óbvia!

Ele é um ser humano repugnante e não tem a menor capacidade propositiva, exceto para o que mau.

Então, por que tantas pessoas votaram e, possivelmente, votarão no Bolsonaro?

Seria por um enlouquecimento geral?

Quem sabe por um entorpecimento coletivo?

Todas as pessoas com as quais conversei votaram no Bolsonaro por DUAS RAZÕES.


A primeira, e a mais forte, é o ANTI-PETISMO.

Antes que você me pergunte, já te respondo: não, no primeiro turno, não votei no Haddad.

Não sou petista.

Mas também não sou anti-petista.

Isso é possível!

Você pode acreditar!

Consigo discernir as contradições e os equívocos do PT.

Talvez, o que me diferencie de um eleitor anti-petista do Bolsonaro é que consigo reconhecer os acertos e as transformações promovidos pelos governos petistas.

Considerando que a corrupção no Brasil é sistêmica e abrangente, honestamente, penso que o PT no poder mais acertou do que se equivocou.

Embora você possa discordar de mim, e te respeito, a história e os números comprovam esta minha consideração.

Tenho para mim, que O ANTI-PETISMO TRANSFORMOU-SE NO MAIOR ÍDOLO DA CULTURA POLÍTICA DO NOSSO PAÍS.

Um ídolo muito sútil, às avessas.

No altar do anti-petismo, sacrifica-se a razão e o bom senso.

Sacrifica-se a história e a memória.

Para nós, cristãos, sacrifica-se a consciência e os valores do Evangelho de Jesus Cristo de Nazaré, especialmente o amor.

Se este ídolo não for profanado nos próximos dias, possivelmente, o que nos esperará serão tempos terríveis.

Dias de injustiça, de violência e de tristeza.

Dias de moralismo, de misoginia, de racismo, de xenofobia, de autoritarismo e de muitas outras mazelas.


A segunda razão é o DISCURSO DA MORAL E DOS BONS COSTUMES.

Por que discurso?

Porque de moral e de bons costumes, que são excelentes, o Bolsonaro não tem absolutamente NADA.

Ele admira ditadura, homenageia torturador, encoraja assassinatos, rebaixa mulheres, deseduca crianças, injuria negros, despreza indígenas e ofende homossexuais, entre outras coisas mais.

Diante disso, alguns dos seus pouquíssimos discursos com os quais qualquer pessoa poderia concordar soam como uma grande HIPOCRISIA.

O Bolsonaro é um ser que DESTILA ÓDIO E BLASFEMA CONTRA O SANTO NOME DE DEUS.

Certamente, o deus que ele declara estar acima de todos não é o Deus da Bíblia.

Isso sem falar que ele representa a perda da soberania nacional, dos direitos sociais, etc..

...

Que Deus, em tempo, nos dê ocasião de ARREPENDIMENTO!

Que o Brasil, de modo geral, e a igreja de modo específico, se arrependam!

Se por misericórdia e graça, não formos governados pelo Bolsonaro, que dê também ao PT ocasião de arrependimento!

Que o PT se arrependa da corrupção que praticou, dos apoios indevidos que deu, de algumas pautas que defendeu e, principalmente, das oportunidades que perdeu!

Que assim seja!

Luiz Felipe Xavier.