quarta-feira, 29 de agosto de 2018

MUITO PERDÃO E MUITO AMOR

No Evangelho de Lucas, Jesus conta quatro parábolas enquanto está na Galiléia. Dessas, a única tipicamente lucana é a Parábola dos Dois Devedores (Lc. 7:36-50). Nessa parábola, Jesus nos ensina que aquele que é muito perdoado muito ama. Ele nos ensina também que o nosso amor a Deus é proporcional à nossa consciência do perdão que recebemos dele. Logo, observemos três efeitos desta experiência com o perdão de Deus.

Quem experimentou o perdão de Deus se humilha diante de Deus

Jesus é convidado para jantar na casa de um fariseu. Num dia de banquete, a casa fica aberta e os convidados ocupam a sala, onde há uma mesa longa e baixa. Ali, eles se reclinam sobre o cotovelo e mantêm os pés afastados. Geralmente, os servos e os curiosos ficam atrás do dono da casa e dos seus convidados. Enquanto o jantar acontece, uma mulher ‘pecadora’, provavelmente uma prostituta, fica sabendo que Jesus está na casa do fariseu e vai até lá. Ela traz um perfume e se coloca atrás de Jesus, no lugar dos servos e dos curiosos. Chorando, a mulher molha os pés dele com suas lágrimas, em uma atitude é de total humilhação. Como não tem uma toalha, ela solta seus cabelos e com eles enxuga os pés de Jesus. Soltar os cabelos em público é um ato vergonhoso e sedutor. Além disso, a mulher beija os pés dele, em uma expressão de honra, gratidão e submissão. Como se não bastasse, ela unge os pés de Jesus com um perfume caro que, possivelmente, usava em seus programas. De agora em diante, ela não precisará mais desse perfume. Escandalizado com o que vê, o fariseu diz a si mesmo: “Se este homem fosse profeta, saberia quem nele está tocando e que tipo de mulher ela é: uma pecadora”. Se a atitude da mulher expressa humildade e gratidão, a atitude do fariseu expressa orgulho e juízo. Com isso, aprendemos que a primeira evidência de que experimentamos o perdão de Deus é a nossa humildade diante dele e a cessação do juízo em relação ao próximo.

Quem experimentou o perdão de Deus ama a Deus

É exatamente neste momento da narrativa que Jesus conta a Parábola dos Dois Devedores a Simão: “Dois homens deviam a certo credor. Um lhe devia quinhentos denários [salário de pouco mais de um ano de trabalho] e o outro, cinquenta [salário de cerca de dois meses de trabalho]. Nenhum dos dois tinha com que lhe pagar, por isso perdoou a dívida a ambos. Qual deles o amará mais?”. Simão responde: “Suponho que aquele a quem foi perdoada a dívida maior”. Ouvindo a resposta de Simão, Jesus afirma: “Você julgou bem”. Assim, o princípio espiritual dessa parábola é claro: o nosso amor a Deus é proporcional à nossa consciência do perdão que recebemos dele. O fariseu Simão, por considerar que foi pouco perdoado, ama pouco. Já a mulher pecadora, por considerar que foi muito perdoada, ama muito. Além disso, da parábola infere-se que todos nós somos devedores a Deus. Alguns têm a consciência de que devem mais e outros a consciência de que devem menos. O problema é que nenhum de nós pode pagar o que deve a Deus. Mas, todos nós podemos receber o perdão da parte dele. Este é o Evangelho! Por sua infinita misericórdia, o Deus Santo perdoa livremente os pecadores culpados. Agora, a pergunta é: como respondemos a esse perdão? Com amor. Amor a Deus, em obediência, e amor ao próximo, em serviço. Com isso, aprendemos também que a segunda evidência de que experimentamos o perdão de Deus é o nosso amor a ele, expresso no amor ao próximo.

Quem experimentou o perdão de Deus desfruta da paz de Deus

Tendo contado a Parábola dos Dois Devedores, Jesus vira-se para a mulher e pergunta a Simão: “Vê esta mulher?”. Jesus compara as atitudes de Simão com as atitudes da mulher. Ele o faz para demonstrar quem foi mais perdoado por Deus e quem ama mais a Deus. Esta comparação baseia-se nos costumes relacionados à hospitalidade. Simão deveria ter dado água a Jesus para lavar os pés e não o deu. Em contrapartida, a mulher molhou os pés de Jesus com suas lágrimas e os enxugou com seus cabelos. Simão deveria ter saudado a Jesus com um beijo na face e não o saudou. Em contrapartida, a mulher não parou de beijar os pés de Jesus. Simão deveria ter ungido a cabeça de Jesus com óleo e não a ungiu. Em contrapartida, a mulher derramou perfume nos pés de Jesus. Ou seja, a mulher fez tudo o que Simão deveria ter feito e não fez. Assim sendo, Jesus declara: “os muitos pecados dela lhe foram perdoados; pois ela amou muito. Mas aquele a quem pouco foi perdoado, pouco ama”. Aqui, a melhor tradução seria: “os muitos pecados dela lhe foram perdoados; portanto ela amou muito”. Isso significa que o amor é consequência do perdão, não a sua causa. Por fim, Jesus faz duas afirmações libertadoras à mulher. A primeira afirmação é: “Seus pecados estão perdoados”. Quando ele diz isso, os outros convidados começam a perguntar: “Quem é este que até perdoa pecados?”. Jesus é um profeta que conhece o coração de Simão e que anuncia o perdão de Deus à mulher. A segunda afirmação é: “Sua fé a salvou; vá em paz”. Jesus deixa claro que a salvação é pela graça, recebida mediante a fé somente. Como resultado, aquele que foi salvo desfruta da paz de Deus. Com isso, ainda aprendemos que a terceira evidência de que experimentamos o perdão de Deus é o nosso desfrutar da sua paz.

Que Deus, por sua graça, nos dê a consciência de que fomos muito perdoados para que muito amemos!

Luiz Felipe Xavier.

sexta-feira, 27 de julho de 2018

Zé da esperança

““Erga a voz em favor dos que não podem defender-se, seja o defensor de todos os desamparados. Erga a voz e julgue com justiça; defenda os direitos dos pobres e dos necessitados”.” [Provérbios‬ ‭31:8-9‬ ‭NVI‬‬]

Depois de muito ouvir falar, os meus olhos viram o que Deus tem feito na Fazenda Nova Esperança, um assentamento de pessoas deslocadas por causa da construção da Barragem de Irapé, no norte das Minas Gerais.

Ali, conheci o Sr. José Francisco, o Zé.

Ele é acolhedor. Recebeu-nos com alegria em sua modesta casa.

Ele é crente! Muito crente! Faz transparecer a sabedoria de Deus pelo que fala.

Ele é politizado. Conhece as dificuldades que um sistema marcado pela injustiça impõe aos mais vulneráveis.

Ele é lutador. Arregaça as mangas e batalha pela dignidade dos mais simples.

Ele é mordomo. Cuida com zelo da criação de Deus.

Ele é grato. Cita pelo nome as pessoas que o ajudaram na vida.

Ele é altruísta. Usa muito mais o “nosso” do que o “meu”.

Ele é puro. Tem a capacidade de ver bondade nos outros.

Ele é pastor. Cuida espiritualmente de homens e mulheres da comunidade.

Ele é discípulo. Ama concretamente como Jesus amou.

Ele é o Zé, o Zé da esperança.

Luiz Felipe Xavier.

P.S.: Na Fazenda Nova Esperança, a Redê (Igreja Batista da Redenção) tem praticado advocacy, defesa de direitos. Que experiência maravilhosa!

sexta-feira, 20 de julho de 2018

Gratidão


10 de julho...

Hoje de manhã, fui informado de que não serei mais professor do curso de Teologia do Centro Universitário Metodista Izabela Hendrix.

Este desfecho já estava prenunciado, mas a forma como a notícia chegou foi uma surpresa.

Busquei confirmações e as obtive. Confirmações e mais surpresas.

Enfim, chegou o comunicado oficial e o pedido para ir à casa assinar uma carta e levar uma carteira.

Tudo absolutamente novo para mim.

Em pouco tempo, passou um longo filme na minha cabeça...

Em sua cena principal, a voz de Deus dirigida à minha consciência: “Eu te coloquei e só eu posso te tirar.”.

Por muitos anos, estas palavras pacificaram a minha alma; hoje, ainda mais.

No caminho até à Rua da Bahia, 2020, orei...

Esta foi uma oração de muitos agradecimentos e de poucos pedidos.

Comecei agradecendo pelos exatos 10 anos de Izabela.

Agradeci por todas as experiências vividas, tanto as boas quanto as ruins.

Agradeci por estar saindo de lá e ainda seguir na Faculdade Batista e na Redê.

Pedi pelos meus dois amigos, Gilmar e Ebenezer, os últimos professores da época da FATE-BH.

Quem diria que sairíamos juntos?

Neste momento, me dei conta de que somente hoje esta faculdade onde me formei e ensinei estava chegando ao fim.

Agradeci pelo querido casal Sanches, Regina e Sidney, que me abriram as portas no fim de 2005.

Agradeci por cada aluno que tivemos.

Imaginei onde e como eles poderiam estar...

A grande maioria, servindo a Deus com seus dons e em seus contextos.

Alguns poucos, infelizmente, distantes do Senhor.

Neste momento, pedi perdão.

Perdão pelos ensinos equivocados aos quais nossos alunos foram expostos.

Perdão pelo que os meus colegas ensinaram errado e, principalmente, pelo que eu mesmo ensinei errado, embora com a melhor das intenções.

O determinismo é um exemplo do que ensinei errado durante algum tempo.

Perdoado, continuei agradecendo...

Agradeci pelo Edésio e pelo Ferrarezi.

Eles não foram chefes; começaram como coordenadores e se tornaram amigos.

Sou muito grato a Deus por estes amados amigos metodistas.

Assim como o casal Sanches, eles estarão para sempre no meu coração.

Na pessoa da Gislene, agradeci a Deus por cada colega.

Eles foram expressões da bondade de Deus em relação a mim.

A esta altura, já quase chegando, agradeci a Deus pelo privilégio de ter contribuído com a formação de tantos obreiros para o Reino de Deus.

Que Deus consolide esta belíssima construção!

Por fim, agradeci pelo sustento de Deus através do Izabela.

O pão nosso chegou à nossa mesa por meio desta dispensa.

E agora?

Agora, estou me sentindo esquisito.

É, esquisito.

Estou convicto de que a ficha ainda não caiu.

Só cairá em agosto, quando as aulas recomeçarem sem mim.

Sentirei muita falta.

Muita, mesmo!

Agora, é vida que segue.

Deus abençoe o Ferrarezi, o único professor que ficou, e cada aluno que caminha para a conclusão do curso.

Guardarei na memória a última aula, numa terça feira fria, quando, mesmo sem saber o que aconteceria, me despedi dos meus alunos.

Guardarei no coração a banca de TCC da Claudinha, meu último ato como professor do Izabela.

Guardarei no coração a despedida calorosa e chorosa dos meus colegas.

De 15 de julho de 2008 a 10 de julho de 2018.

Deus é bom!

Luiz Felipe Xavier.

segunda-feira, 25 de junho de 2018

O caminho do Reino: uma introdução às parábolas

Uma parábola é uma estória contada com elementos da vida cotidiana para ilustrar um princípio espiritual. Em Marcos 4:33-34 está escrito: “Com muitas parábolas semelhantes Jesus lhes anunciava a palavra, tanto quanto podiam receber. Não lhes dizia nada sem usar alguma parábola. Quando, porém, estava a sós com os seus discípulos, explicava-lhes tudo.”. De acordo com Klyne Snodgrass, as parábolas constituem cerca de 35% dos ensinos de Jesus. Logo, para interpretá-las é necessário considerar tanto o seu ambiente vivencial quanto o seu contexto literário, buscando sempre o princípio espiritual contido em cada uma delas.
Podemos dizer que, de modo geral, o conteúdo das parábolas de Jesus é o Reino de Deus. Elas aprofundam três importantes aspectos: a natureza do Reino – o Reino de Deus é o governo de Deus sobre tudo e sobre todos; a vida no Reino – no Reino de Deus a vida é marcada pela dinâmica da misericórdia; e a consumação do Reino – o Reino de Deus se consumará com a segunda vinda de Cristo, quando haverá julgamento da humanidade, e justiça plena sobre os novos céus e a nova terra.
Seguindo a estrutura dos próprios Evangelhos Sinópticos, as parábolas são contadas na Galiléia, na viagem até Jerusalém e em Jerusalém. Sob esta perspectiva, em Marcos, 50% das parábolas estão na Galiléia e 50% em Jerusalém. Em Mateus, 54,5% estão na Galiléia, 4,5% na viagem e 41% em Jerusalém. Em Lucas, 13,7% estão na Galiléia, 79,5% na viagem e 6,8% em Jerusalém. Fato é que, a maneira como Marcos, Lucas e Mateus organizam as parábolas em seus Evangelhos tem como propósito apresentar-nos quem é o discípulo de Jesus, ou seja, quem é aquele que segue pelo caminho do Reino de Deus. Assim, observemos três diferentes atitudes desse discípulo.
Primeira atitude: Para Marcos, o discípulo é aquele escuta a Palavra. Um exemplo disso é a “Parábola dos Tipos de Solo” ou “Parábola do Semeador”, em Marcos 4:3-9. A palavra que introduz essa parábola é: “Ouçam!”. As palavras que concluem essa parábola são: “Aquele que tem ouvidos para ouvir, ouça!”. Essa parábola descreve três incidentes de semeaduras malsucedidas e um incidente de semeadura exitosa. Na primeira semeadura malsucedida, a semente cai à beira do caminho. Seu desafio é o da centralidade da Palavra no coração do discípulo. Na segunda semeadura malsucedida, a semente cai sobre pedras. Seu desafio é o da profundidade da Palavra no coração do discípulo. Na terceira semeadura malsucedida, a semente cai entre espinhos. Seu desafio é o da frutificação da Palavra no coração do discípulo. Na única semeadura exitosa, a semente cai em boa terra, germina, cresce e dá boa colheita. O princípio espiritual que essa parábola ilustra é o seguinte: quem escuta-obedece a Palavra de Jesus colhe os frutos dessa Palavra na vida. Assim sendo, para Marcos, o discípulo é aquele que escuta a Palavra. Essa escuta da Palavra é sinônima da nossa disposição à obediência.
Segunda atitude: Para Lucas, o discípulo é aquele que se auto-humilha. Um exemplo disso é a “Parábola do Fariseu e do Publicano”, em Lucas 18:9-14. No verso 9, Jesus anuncia o público alvo dessa parábola: alguns que confiavam em sua própria justiça e desprezavam os outros. Vale ressaltar que o anúncio do público alvo é uma característica das parábolas de Lucas. Essa parábola contrasta dois personagens: o fariseu e o publicano.   O primeiro, o fariseu, se exalta, apresentando a Deus seus méritos. Ele confia em sua justiça própria e despreza os outros. O segundo, o publicano, se humilha, batendo no próprio peito. Ele é desprezado pelos outros e confia única e exclusivamente na misericórdia de Deus. O princípio espiritual que essa parábola ilustra é o seguinte: aquele que se exalta será humilhado e aquele se humilha será exaltado. Consequentemente, para Lucas, o discípulo é aquele que se auto-humilha. Essa auto-humilhação é condição para experimentarmos e para manifestarmos a misericórdia.
Terceira atitude: Para Mateus, o discípulo é aquele que pratica a justiça. Um exemplo disso é a “Parábola do Juízo das Nações”, em Mateus 25:31-46. Essa parábola é escatológica. Ela aponta para o fim da era presente, quando Jesus voltará em glória. Ele voltará e julgará todas as nações e toda a humanidade. Nesse julgamento, ele reunirá as nações e separará dentre elas as ovelhas e os bodes. As ovelhas ficarão do lado direito e os bodes do lado esquerdo. O lado direito é o lado da mão direita do Senhor, a mão da sua força, do seu poder e da sua salvação. As ovelhas são justas e benditas, e receberão o Reino como herança. Elas são benditas porque servem a Deus servindo as pessoas em suas necessidades. Ovelhas são sensíveis. Os bodes são injustos e malditos, e receberão o fogo eterno, preparado para o Diabo e seus anjos. Eles são malditos porque não servem a Deus servindo as pessoas em suas necessidades. Bodes são insensíveis. O princípio espiritual que essa parábola ilustra é o seguinte: os que servem a Jesus servindo as pessoas receberão o Reino como herança. Então, para Mateus, o discípulo é aquele que pratica a justiça. Essa prática da justiça é resultado do amor de Deus derramado em nossos corações.
Que Deus, por sua graça, nos ajude a segui-lo com integridade!

Luiz Felipe Xavier.

As próximas publicações serão sobre as parábolas de Jesus.

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Evitando as contendas

Desde o período que antecedeu as últimas eleições presidenciais, a polarização política no Brasil se acirra cada dia mais. De um lado pessoas de esquerda e do outro lado pessoas de direita. Como, em certa medida, a igreja reflete a sociedade na qual ela está inserida, de um lado temos irmãos de esquerda e do outro lado temos irmãos de direita. Diante deste cenário, algumas perguntas pastorais: Como cuidar de pessoas que estão em polos tão antagônicos no espectro político? Como ensiná-las que acima de suas ideologias, sejam elas quais forem, deve estar o Reino de Deus e a sua justiça? Como ajudá-las a se amarem ao invés de se odiarem? E mais: Como obedecer a ordem do apóstolo Paulo que, escrevendo aos Efésios, roga: “Façam todo o esforço para conservar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz.” (4:3)?
Na tentativa de responder essas perguntas, consideremos as palavras do mesmo Paulo, desta vez, escrevendo aos coríntios. Embora as razões das contendas naquela igreja sejam diferentes das razões das contendas nas nossas igrejas, os princípios ensinados pelo apóstolo são relevantes para hoje. Neste sentido, em 1 Coríntios, há três palavras que são muito importantes. A primeira é hairesis. Essa palavra pode ser traduzida por “escolha pessoal” diante de uma diversidade de opiniões e objetivos. A segunda é eris. Essa palavra pode ser traduzida por “contenda”, “disputa” e “discussão”. A terceira é shisma. Literalmente, essa palavra pode ser traduzida por “rasgo” e, metaforicamente, por “divisão” e “dissensão”. Fenomenologicamente, o que acontece é o seguinte: uma escolha pessoal (hairesis) pode gerar uma contenda (eris) e provocar uma divisão (shisma). Para evitar as contendas é necessário discernir a mentalidade mundana que está por trás delas. Tomando como referência 1 Coríntios 3, essa mentalidade mundana se expressa de três maneiras.
A primeira maneira pela qual a mentalidade mundana se expressa é a criancice (1-4). Paulo começa dizendo que não pode falar aos irmãos como a espirituais, como a pessoas que têm o Espírito Santo, mas como a carnais, como a pessoas que não tem o Espírito Santo. Eles têm o Espírito Santo, porém, agem como se não tivessem. Na verdade, os irmãos são crianças em Cristo. Ao invés de alimento sólido, só podem receber leite. Os irmãos são carnais, são como crianças, porque, de acordo com o contexto, eles não dão ouvidos ao Espírito Santo. O Espírito Santo sonda as coisas profundas de Deus, conhece os pensamentos de Deus e procede de Deus; ele ensina as palavras de Deus, interpreta as verdades espirituais e ajuda a discernir todas as coisas (cf. 1 Co. 2:10b-16a). Logo, só quem dá ouvidos ao Espírito Santo tem a mente de Cristo (cf. 2:16b). Todavia, como a carnalidade ou a criancice dos irmãos se manifesta? Através da rivalidade (zelos) e da contenda (eris). Eles defendem suas escolhas pessoais com tanto ardor que provocam brigas. Os de Paulo querem convencer os de Apolo e os de Apolo querem convencer os de Paulo. O resultado são as contendas. Paulo deixa claro que isso é mundano e carnal; é uma criancice espiritual.
Como podemos superar a criancice hoje? Há duas medidas que precisamos tomar. A primeira é dar ouvidos ao Espírito Santo. Para tal, precisamos parar, nos aquietar, silenciar e ouvir a Palavra revelada. A segunda é parar de tentar convencer os outros das nossas escolhas pessoais. Para tal, precisamos considerar a liberdade de consciência e, se possível, praticar um diálogo entre ouvintes.
A segunda maneira pela qual a mentalidade mundana se expressa é o partidarismo (5-17). Como já visto, o partidarismo na igreja de Corinto se dá entre os de Paulo e os de Apolo. Atacando esse partidarismo, o apóstolo pergunta: Quem é Apolo? Quem é Paulo? Ele mesmo responde: Apenas servos. Apolo e Paulo são servos do Senhor, exercendo seus dons na igreja. Para deixar isso bem claro, o apóstolo lança mão de duas comparações. A primeira comparação é oriunda da agricultura. Paulo planta, Apolo rega, contudo, Deus faz crescer. Deus é infinitamente mais importante do que Paulo e Apolo. Entretanto, porque eles realizam bem o seu trabalho, serão recompensados por Deus. A segunda comparação é oriunda da arquitetura. Paulo lança o alicerce, Apolo constrói sobre esse alicerce, no entanto, o edifício-santuário é de Deus. Fica claro que todos os construtores devem realizar muito bem o seu trabalho. Isso implica em manter o alicerce – que é Jesus Cristo – e em escolher bem os materiais que serão utilizados na construção. No Dia do Senhor, a obra de cada construtor será provada pelo fogo. Assim sendo, a igreja de Corinto é o santuário de Deus onde habita o Espírito Santo. Como esse santuário de Deus é sagrado, quem o destruir será destruído por Deus.
Como podemos superar o partidarismo hoje? Há também duas medidas que precisamos tomar. A primeira é reconhecer que as pessoas são relativas. Para tal, precisamos substituir apreciações ideais por apreciações reais. A segunda é constatar que Deus trabalha no mundo com pessoas relativas. Para tal, precisamos saber que os colaboradores de Deus serão recompensados e responsabilizados, e que os destruidores do trabalho de Deus serão destruídos.
A terceira e última maneira pela qual a mentalidade mundana se expressa é a loucura (18-23). Paulo conclui retomando o contraste entre a sabedoria deste mundo, que é loucura, e a sabedoria de Deus, que é verdadeira sabedoria. Em relação a isso, os irmãos não devem se enganar. A sabedoria deste mundo, que tanto seduz os coríntios, é loucura aos olhos de Deus. Isso porque Deus é mais sábio do que todos os homens sábios e os pensamentos desses homens sábios são inúteis. Então, ao invés de se gloriar em homens, os irmãos devem se gloriar em Deus – o foco deve estar sempre em Deus. Quando isso acontece, é possível desfrutar de tudo o que é bom como graça de Deus e descobrir que há mais riqueza no todo do que nas partes.
Por fim, como podemos superar a loucura hoje? Há ainda duas medidas que precisamos tomar. A primeira é manter o nosso foco sempre em Deus. Para tal, precisamos considerar a grandeza de Deus e a nossa pequenez. Como resultado, todas as demais coisas ao nosso redor ficarão do seu real tamanho. A segunda é desfrutar da riqueza do todo. Para tal, precisamos estar convencidos de que nossa perspectiva sobre a realidade é limitada e de que não temos toda a verdade em nós mesmos. Como resultado, descobriremos que há mais riqueza no todo do que nas partes.
Que Deus, por sua graça, nos ajude a evitar contendas!

Luiz Felipe Xavier.

P.S.: Todos nós podemos ter opiniões pessoais. Todos nós podemos expressar nossas opiniões pessoais. O que nós não podemos fazer é entrar em contendas com os nossos irmãos. Caso isso aconteça, a divisão entre nós será um risco real e iminente.

sábado, 7 de abril de 2018

Sobre o ex-presidente Lula - um breve testemunho pessoal

Em 1998, votei pela primeira vez. Votei no Lula. Perdemos.

Em 2002, votei novamente no Lula. Desta vez, ganhamos.

Em 2003, começavam os melhores anos da história recente do Brasil. Quanto a isso, os números são inquestionáveis.

Em 2006, votei no Lula de novo. Mais uma vez ganhamos. Nesta ocasião, o Brasil já se tornara uma nação respeitada no cenário político mundial.

Pela primeira vez na história, os pobres, em sentido amplo, foram representados e considerados neste país. Como resultado das políticas sociais do governo Lula, dezenas de milhões de pessoas foram beneficiadas e passaram a viver com mais dignidade. Que tempo maravilhoso!

Em 2011, com o maior índice de aprovação da história (mais de 80%), o Lula deixou a presidência. Nestes oito anos de governo, ele falhou? É óbvio! Ele é um ser humano. Talvez a sua principal falha tenha sido a de não promover as reformas estruturais que tanto necessitamos.

Tanto em 2010 quanto em 2014, por ser indiscutivelmente o maior líder político do país, o Lula elegeu e reelegeu a Dilma. Em 12 anos de governo Lula-Dilma, o maior mérito foi alcançado: a ONU retirou o Brasil do mapa da fome. Parecia um sonho, mas era realidade.

Em 2016, o Brasil sofreu um terrível golpe parlamentar. Sob o pretexto de acabar com a famigerada corrupção, retirou-se do poder a presidenta Dilma. Em seu lugar colocaram um traidor, líder de uma quadrilha.

Os investimentos no essencial foram congelados, os direitos dos trabalhadores vilipendiados e as riquezas nacionais entregues. Uma profunda crise institucional se estabeleceu. Hoje, quase ninguém mais acredita nos poderes executivo, legislativo e judiciário. Vivemos dias de caos e de desesperança.

Paralelamente a tudo isso, o ex-presidente Lula, sob ataque constante da grande mídia - também conhecida como quarto poder - disparou em todas as pesquisas de intenções de votos para as eleições 2018. Como é possível explicar isso? Feito massa fermentada, quanto mais batiam, mais ele crescia.

Logo, era preciso parar este sujeito. A grande questão é: como? Nas urnas, para o desespero dos seus adversários e inimigos, impossível. O povo, principalmente os pobres, tem boa memória. Assim, foi necessário lançar mão do poder judiciário. Com muita convicção e sem nenhuma prova, o ex-presidente Lula sofreu uma condenação política. Todos os recursos cabíveis foram tentados, porém, sem nenhum sucesso. Quem sabe um pedido de habeas corpus preventivo ao STF? Impossível também. Como declararam os profetas, aqueles amigos do traidor, o plano seria um grande acordo nacional, com o Supremo e com tudo.

Anteontem, mesmo sem se esgotar os recursos possíveis em segunda instância, a prisão do ex-presidente Lula foi decretada. Alegria para uma minoria poderosa, tristeza para uma maioria subjugada. Tristeza para mim também, confesso.

Se você me perguntar: Você acha que o ex-presidente Lula é inocente? Honestamente, acho que não. Repito: acho. Isso porque não acredito em inocentes no sistema político brasileiro. Em nenhum inocente. Esse sistema está carcomido pela corrupção até às entranhas. Todavia, continuo acreditando que todo cidadão brasileiro é inocente até que se prove o contrário. Repito: prove. No caso do ex-presidente Lula, nenhuma prova material foi apresentada. Assim sendo, sua condenação é um ato político, marcado pela injustiça. Da mesma forma que eu sou contra a corrupção, eu sou contra a injustiça.

Por fim, ao ex-presidente Lula a minha gratidão e minha solidariedade. Gratidão por tudo o que ele fez pelo nosso país. Os seus oito anos de governo jamais serão esquecidos. Tenho 36 anos de idade e posso afirmar com toda certeza: o melhor Brasil que vivi foi governado por este ex-metalúrgico nordestino. Os meus contemporâneos, até aqueles que o odeiam sem razão, não podem negar isso. E solidariedade porque a privação da liberdade não deve ser algo fácil para nenhum ser humano. Ainda mais quando esta é produto de uma condenação injusta.

Que o nosso bom e justo Deus tenha misericórdia do ex-presidente Lula e de todo o povo brasileiro!

Luiz Felipe Xavier.

Foto: Francisco Proner Ramos

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

O que é mais importante na vida

Jesus está em Jerusalém, na última semana do seu ministério terreno. Ali, ele pronuncia uma sentença contra o judaísmo do templo e reforça essa sentença. Neste reforço, Jesus conta a Parábola dos Lavradores aos chefes dos sacerdotes, aos mestres da lei e aos líderes religiosos. Depois disso, ele responde ao questionamento dos fariseus e dos herodianos sobre o pagamento de imposto a César, ao questionamento dos saduceus sobre a realidade da ressurreição e ao questionamento de um mestre da lei sobre os mandamentos. Acima de tudo, Jesus deixa claro que os seus discípulos são aqueles que obedecem aos seus mandamentos.
O mandamento mais importante é o amor a Deus (Mc. 12:28-30). Marcos diz que um mestre da lei se aproxima de Jesus e ouve o que ele estava discutindo com os saduceus sobre a realidade da ressurreição. Esse mestre da lei gosta da resposta de Jesus aos saduceus e se sente à vontade para lhe perguntar sobre qual é o mandamento mais importante. Na lei de Moisés há 613 mandamentos, sendo 365 ordens e 248 proibições. Logo, debater a importância relativa desses mandamentos é algo comum entre os mestres da lei. Eles querem descobrir o mais importante, o que explica os demais. Jesus responde à pergunta citando Deuteronômio 6:4-5, o shema: “Ouve, ó Israel, o Senhor, o nosso Deus, o Senhor é o único Senhor. Ame o Senhor, o seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma, de todo o seu entendimento e de todas as suas forças.”. Estes versos são recitados por todos os judeus no início e no fim do dia. Neles, observamos alguns detalhes interessantes. Primeiro, o povo de Deus é o povo da escuta. O texto afirma: “Ouve, ó Israel”. Segundo, a escuta possibilita o relacionamento pessoal com Deus. Esse Deus pode ser chamado de “nosso”. Terceiro, o único Deus com o qual o seu povo se relaciona pessoalmente é a Trindade. Em Deuteronômio 6:4, fonte dessa citação de Jesus, a palavra “Deus” é tradução de elohiym, um plural majestático. Literalmente, essa tradução seria “Deuses”. Nela, a fé cristã vê uma referência às pessoas do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Além disso, a palavra “único” é tradução de echad, “um conjunto”. Os hebreus têm duas palavras para dizer “um”: yachiyd, que é “um” para uma peça única (p. ex.: um pêssego); e echad, que é “um” para um conjunto único, distinto e só reconhecível como tal (p. ex.: um cacho de uva – talo e uvas separadamente não são cacho). Assim, o Deus de Israel é um só Deus, em três pessoas. Quarto, o povo de Deus ama a Deus com todo o seu ser. O texto diz: “Ame o Senhor”. Este amor é de todo o coração, que é o centro da vida, o centro das decisões e das ações. É amor de toda a alma, com sentimentos, afeições e desejos. É amor de todo o entendimento, com mente, intelecto e pensamentos. É amor de todas as forças, com todo vigor. Assim sendo, Jesus deixa claro que o amor a Deus é o mandamento mais importante.
Diante de tudo isso, como amamos a Deus? O nosso amor a Deus expressa-se, especialmente, em obediência (Cf. Jo. 14:21). Nós amamos a Deus adorando-lhe exclusivamente. Isso significa que os ídolos devem ser identificados e abandonados. Nós amamos a Deus buscando-lhe integralmente. Isso porque a sede e a fome espirituais são marcas de alguém que nasceu de novo, que foi regenerado. Dentre outras coisas, essa busca por Deus nos exigirá algo muito precioso: o nosso tempo.
O segundo mandamento mais importante é o amor ao próximo (Mc. 12:31-34). Tendo respondido a pergunta do mestre da lei sobre o mandamento mais importante, Jesus, citando agora Levítico 19:18, acrescenta o segundo mais importante: “Ame o seu próximo como a si mesmo”. Esse “como a si mesmo” pressupõe que o amor próprio seja algo natural. E Jesus continua, afirmando: “Não existe mandamento maior do que estes”. Aqui temos um detalhe importante: A palavra “mandamento” está no singular. Isso significa que o amor a Deus e o amor ao próximo são um só e mesmo mandamento. É exatamente isso que o apóstolo João diz: “Ele nos deu este mandamento [singular]: Quem ama a Deus, ame também o seu irmão.” (1 Jo. 4:21). Jesus deixa claro que o amor ao próximo é o segundo mandamento mais importante. Consequentemente, o amor é a lei da vida para todos aqueles que são discípulos de Jesus. Sobre isso, o apóstolo João também afirma: “Um novo mandamento lhes dou: Amem-se uns aos outros. Como eu os amei, vocês devem amar-se uns aos outros. Com isso todos saberão que vocês são meus discípulos, se vocês se amarem uns aos outros.” (Jo. 13:34-35). Então, o amor é a identidade dos discípulos de Jesus. Evitando mencionar o nome de Deus, o mestre da lei reconhece que Jesus está certo. Jesus, por sua vez, declara: “Você não está longe do Reino de Deus.”. Apesar da sua religiosidade, o mestre da lei ainda está fora. Mas está perto. Para entrar no Reino de Deus, basta arrepender-se e crer (Cf. Mc. 1:14-15).
Frente a tudo isso, como amamos ao nosso próximo? O nosso amor ao próximo manifesta-se, principalmente, em serviço. Nós amamos o nosso próximo quando discernimos suas necessidades e procuramos supri-las. Para tal, precisamos de ouvidos atentos, de coração aberto e de mãos operantes. Nós amamos o nosso próximo com atitudes concretas de bondade em sua direção. Sobre isso, Ricardo Barbosa escreve: “É possível amar uns aos outros, até mesmo os inimigos, como Jesus afirmou. Não se trata do que eu sinto por eles, mas do quanto eu estou disposto a promover o bem deles. Foi isso que Deus fez por meio de Cristo, e é isso que somos chamados a fazer.”.
Que Deus, por sua graça, nos ajude a realizar o que é mais importante na vida! Que ele nos ajude a amar!

Luiz Felipe Xavier.