quarta-feira, 26 de agosto de 2020

ALEGRIA, TRISTEZA E INDIGNAÇÃO

Cheguei na Faculdade Batista de Minas Gerais em agosto de 2007 e saio em agosto de 2020. Juntamente com quase todo o corpo docente da Teologia, fui demitido, ontem.

Sou muito grato a Deus pela caminhada com os meus colegas professores e com os meus queridos alunos. Foi um tempo excelente, que deixará boas lembranças e muitas saudades. A foto acima, em sala de aula, ilustra bem isso.


Alguns têm me perguntado como estou me sentindo neste momento tão difícil. Honestamente, sinto alegria, tristeza e indignação. Alegria pela bela história, tristeza pela repentina ruptura e indignação pela forma como tudo aconteceu. É lamentável constatar que o plano perverso de acabar com o nosso curso presencial de Teologia alcançou êxito.


Saio com a certeza de que cumpri a minha missão, dando o melhor de mim. Durante estes 13 anos de exercício da minha vocação, não apenas dei aula. Vivi aula, como costumo dizer. A intensidade era tanta que, muitas vezes, saía da faculdade quase sem energia, porém, absolutamente realizado.


Peço a Deus que abençoe cada aluno e aluna que tive (alguns se tornaram amigos). Abençoe sua vida, família, igreja e ministério!


Lamento por ter sido impedido de concluir este semestre que iniciamos há algumas semanas. Aos meus últimos alunos ali, todo o meu respeito e toda a minha gratidão. Eu estava cumprindo o que prometi no primeiro dia de aula: estava fazendo o possível para que tivessem o melhor período da vida de vocês. Que pena que não pude continuar! Desejo-lhes tudo de bom. Jamais desistam de uma formação teológica de qualidade. Jamais!


Ah, não poderia deixar de mencionar o nosso encontro de despedida, ontem, pelo Zoom. Foi um daqueles momentos quando o céu parece tocar a terra. Foram duas horas de boas gargalhadas e de muitas lágrimas. Guardarei no coração as generosas palavras de gratidão e de encorajamento de vocês.


E quanto ao futuro? Obviamente, não sei o que acontecerá. Tenho alguns sonhos e alguns planos. Amo a Deus e desejo prosseguir no serviço a ele e ao seu Reino, através do ensino da Teologia. Quero continuar refletindo de maneira bíblica e contextual, como nos ensinam especialmente os nossos mestres latino-americanos. Também quero cada vez mais distância dos fundamentalismos e de toda tentativa de formatação, de uniformização e de encaixotamento.


Agora, quero me recolher por um tempo e discernir a direção para os próximos passos.


Que a luz de Deus brilhe intensamente sobre tudo e sobre todos nós!


Amém!


Luiz Felipe Xavier.

quarta-feira, 15 de julho de 2020

(Re)começo


É começo
Eu começo

Não começo do começo
Não sei onde isso começou
Começo de onde é possível
Começo da impossibilidade que agitou

Agitação é caos
Caos é sentimento
Sente quem está vivo
Vivo mesmo que sofrendo

Sofrimento é produção
Produção se dá com dor
Quando dói resta o grito
Grito pela ação do Criador

É recomeço
Eu recomeço

Luiz Felipe Xavier

quarta-feira, 15 de abril de 2020

SUPERANDO AS CRISES DA VIDA

Guernica”, de Pablo Picasso
Joel faz parte dos chamados “profetas menores”, aqueles cujas mensagens são mais resumidas. Seu nome significa “O Senhor é Deus”. Na cultura hebraica, os pais escolhem os nomes dos seus filhos pelo seu significado espiritual. Logo, o nome Joel expressa a singularidade de Deus, num contexto politeísta, e a soberania de Deus, num contexto de caos. Joel é filho de Petuel e, provavelmente, pertence à classe sacerdotal. Também é provável que ele esteja profetizando nos tempos do rei Joás (c.a. 830-810 a.C.). Joel profetiza de Jerusalém para todo o reino de Judá. Ele antevê um tempo de crise e orienta sobre a sua superação.
Crise é uma situação de instabilidade, geralmente provocada por alguma mudança. Essa instabilidade requer um esforço extra para reencontrar a estabilidade. Aqui cabe a pergunta: quais são as crises pelas quais passamos? Passamos por crises familiares, quando há atritos nos relacionamentos entre marido e mulher, pais e filhos, etc.. Passamos por crises financeiras, quando há desemprego, recolocação em condição inferior, falência, dívida, etc.. Passamos por crises de saúde, quando há doenças, acidentes, pandemias – como a do Covid-19 que nos assola hoje. Passamos por crises existenciais, quando surgem as questões da juventude, da meia idade e da velhice. E passamos por crises espirituais, quando há abalo ou ausência de fé. As crises fazem parte da vida de qualquer ser humano. Em Joel 1, encontramos três importantes orientações que nos ajudarão a superar as crises da vida.

Toda crise pode trazer consigo elementos jamais vistos

A crise nos dias de Joel é uma crise jamais vista. É por isso que ele chama os anciãos e todos os habitantes do país e pergunta: já aconteceu algo assim nos seus dia ou nos dias dos seus antepassados? Joel descreve o que acontecerá pintando um quadro de destruição total. A famosa “Guernica”, de Pablo Picasso, não chega nem aos pés da pintura de Joel. Como em quase todo o Antigo Testamento, o cenário é agropastoril. As pessoas vivem no campo, da agricultura e da pecuária. Em breve, esse cenário será marcado por gafanhotos destruidores, por seca rigorosa, por fogo intenso e por fome mortal. O que espera a todos é a morte. Joel afirma que isso nunca havia acontecido antes porque cada crise traz consigo elementos jamais vistos. As nossas crises também trazem elementos jamais vistos. Assim, nós precisamos tomar consciência disso. Planejamento, quando possível, ajuda, mas não resolve. Por isso, em meio à crise, a primeira coisa que precisamos aprender é lidar com o novo.

Toda crise pode contribuir para o crescimento pessoal

Além de pintar o quadro da crise, Joel ensina às pessoas a crescer em meio à crise. Nessa orientação, três verbos se destacam. O primeiro verbo é: acordem! O profeta diz: “Acordem, bêbados, e chorem! Lamentem-se todos vocês bebedores de vinho; gritem por causa do vinho novo, pois ele foi tirado dos seus lábios.”. A embriaguês implica fuga da realidade. A quem opta por isso, Joel afirma: acordem! O vinho acabou. Ou seja, venham para a realidade. Em meio à crise, a nossa realidade pode ser tão dura que pensamos em fugir dela. O grande problema é que a fuga da realidade não ajuda em nada e ainda pode retardar o processo de superação da crise. Assim sendo, em meio à crise, nós precisamos de um “choque de realidade”, não de uma fuga da realidade. Nós precisamos acordar.
O segundo verbo que se destaca na orientação de Joel é: pranteiem! É natural que o “choque de realidade” leve ao pranto. O profeta diz: “Pranteiem como uma virgem em vestes de luto que se lamenta pelo noivo da sua mocidade.”. Os hebreus conhecem dois exemplos terríveis de luto: o luto pela morte do noivo (a conseqüência é a inexistência de herdeiros) e o luto pela morte do filho único (a conseqüência é a perda do nome). Joel lança mão do primeiro exemplo para afirmar ao povo: pranteiem! Mais do que prantear pela realidade na qual vocês estão inseridos, pranteiem porque vocês estão impedidos de superá-la por si mesmos. Enquanto lidamos com as nossas crises, precisamos chorar. Chorar é terapêutico em tempos de crise. É terapêutico porque nos ajuda a lidar com as nossas perdas concretas. Então, tempo de chorar é tempo de chorar.
O terceiro verbo que se destaca na orientação de Joel é: desesperem-se! Mais do que acordar e prantear, ainda é necessário se desesperar. Aqui surge uma pergunta: a mensagem cristã não é a mensagem da esperança? Sim, porém, o profeta diz: “Desesperem-se, agricultores, chorem produtores de vinho; fiquem aflitos pelo trigo e pela cevada, porque a colheita foi destruída. A vinha está seca, e a figueira murchou; a romãzeira, a palmeira, a macieira e todas as árvores do campo secaram. Secou-se, mais ainda, a alegria dos homens.”. Quando os agricultores querem colocar a sua esperança em algo que já não existe mais, Joel afirma: desesperem-se! Isto é, tirem a esperança de vocês do que já passou. Enquanto passamos pelas nossas crises, também precisamos ouvir: desesperem-se! Isso porque, ao invés de investir tempo e energia no que existe como possibilidade adiante, gastamos tempo e energia com o que não existe mais, com o que já passou. Conseqüentemente, precisamos ser tomados de desesperança para com aquilo que ficou para trás. Quando isso acontecer, seremos cheios de esperança para olhar para frente e recomeçar.

Toda crise pode ser uma oportunidade de aproximar-se de Deus

Tendo pintado o quadro da crise e orientado as pessoas a crescer em meio à crise, Joel apresenta a maior de todas as oportunidades da crise: a oportunidade de aproximar-se de Deus. Como isso é possível? Primeiro, através do jejum. “Decretem um jejum santo”. O jejum é um sinal visível de humilhação perante Deus. Jejuamos sobretudo para tomar consciência da constante presença de Deus conosco, algo difícil em tempos de crise. Além disso, jejuamos para tomar consciência de nós mesmos e para nos identificar minimamente com os que passam fome. Segundo, podemos nos aproximar de Deus através da comunhão. “Convoquem uma assembléia sagrada”. Embora possamos buscar a Deus sozinhos, melhor é buscá-lo em companhia de outras pessoas que também passam por crises. Nestes dias de distanciamento físico, uma boa alternativa são os encontros virtuais. Lembremo-nos que virtual é diferente de presencial, não de real. Terceiro, podemos nos aproximar de Deus através da oração. “Clamem ao Senhor”. O tempo de crise é também o tempo de oração. É, acima de tudo, o tempo da intercessão uns pelos outros. É o tempo de expressar a Deus a nossa total dependência dele. É o tempo de rasgar o coração na presença dele e clamar por socorro. É o tempo de apresentar nossa ansiedade a ele e nos apropriarmos da sua paz.

Que assim seja!

Luiz Felipe Xavier.

terça-feira, 7 de abril de 2020

Hoje, ela completaria 100 anos


Se estivesse viva, minha avó Dayse completaria 100 anos hoje.

Ela foi uma mulher temente a Deus e amante da sua Palavra. Por apreciar de modo especial os Salmos, chamava a si mesma de “Salmista”. Mas, certamente, “Generosidade” também poderia ser um dos seus nomes. Foi ela quem pediu a Deus que um dia eu fosse um pastor. E frente às dificuldades da vida, era ela quem sempre me dizia: “Em tudo dai graças, em tudo.”.

Iá-Iá, era assim que eu a chamava, você faz muita falta. Há 10 anos você foi se encontrar com o nosso Deus, deixando-nos uma incalculável herança espiritual. Em breve, estaremos juntos por toda a eternidade.

Te amei, te amo e te amarei!

Seu primeiro neto, Luiz Felipe.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

JESUS NASCE AQUI TAMBÉM

O Advento é tempo de grande expectativa, tempo de aquietar a alma e de meditar sobre o maior de todos os acontecimentos: a entrada de Deus na nossa história. Na nossa comunidade de fé, temos a tradição de celebrar o início do Advento com o musical das crianças. Este ano não foi diferente. Os nossos meninos e meninas contaram e cantaram como seria o Natal Brasileiro. Já caminhando para o fim, uma música ecoou de modo especial no meu coração e me levou às lágrimas. Em ritmo de samba, as crianças cantaram bem alto:

Sim, é Natal
Vida e alegria estão no ar
Eu quero lhe dizer
Que isto é pra você

O Menino Jesus que traz sua luz
Pra encher o mundo de paz
Nasceu e ensinou o valor do amor
Entre nós!

Mesmo longe de Belém
Sua vida chega aos nossos corações

Brasil! Vem Comemorar porque Jesus
Nasce Aqui Também

Brasil! Vem Comemorar porque Jesus
Nasce Aqui Também

Confesso que não sei se cantei ou orei estas últimas palavras. Acho que fiz as duas coisas: cantei orando e orei cantando. De lá para cá, no espírito do Advento, releio o início do Evangelho de Lucas. Ali, como as crianças cantaram, percebo que o Natal é tempo de grande alegria, tempo de celebrar a pessoa de Jesus e o Reino inaugurado por ele.
Certamente, a alegria é uma das grandes ênfases dos dois primeiros capítulos do Evangelho segundo Lucas. João Batista, o precursor do Salvador, será motivo de alegria para Zacarias, seu pai, e para muitos (1:14). Na anunciação, as primeiras palavras do anjo Gabriel a Maria são: “alegrem-se, agraciada” (1:28). Quando Maria saúda Isabel, o bebê João Batista agita-se de alegria ainda no ventre (1:44). Quando este nasce, vizinhos e parentes se alegram com sua mãe (1:58). E quando Jesus nasce, o anjo do Senhor traz boas novas de grande alegria a simples pastores de ovelhas (2:10).
Dentre tantas menções à alegria, uma chamou a minha atenção de modo especial: a do Magnificat. Depois do encontro com Isabel, Maria canta: “Minha alma engrandece ao Senhor e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador” (1:48). Maria canta porque Deus atenta para a sua humildade. Agora, ela é bem-aventurada, é feliz. Maria canta porque reconhece que Deus é misericordioso. Essa misericórdia se estende de geração em geração. Maria canta porque Deus realiza poderosos feitos na história. Como sinais do Reino que Jesus inaugurará, ela destaca que os soberbos são dispersos, que os poderosos são derrubados, que os humildes são exaltados, que os famintos são saciados, que os ricos são despedidos de mãos vazias e que as pessoas são ajudadas.
Jesus nasceu e inaugurou esse Reino. Logo, tudo isso que alegrou o coração de Maria pode alegrar o nosso coração também. Porque o Reino de Deus já está presente em nós e entre nós, a realidade na qual vivemos pode ser transformada. É como as crianças cantaram! Porque o menino Jesus nasceu, a tristeza dá lugar à alegria. Alegria que fortalece todo o nosso ser. A morte, por sua vez, dá lugar à vida. Vida nova e constante novidade de vida. Sim, esta é uma realidade possível a todos e a cada um de nós! Jesus traz sua brilhante luz para quem se encontra em densas trevas. Ele é capaz de encher o nosso mundo de paz. Paz que só pode ser experimentada como produto da justiça pessoal e social. Acima de tudo, Jesus veio para nos ensinar a amar. Amar a Deus amando as pessoas. Amar tanto aqueles que julgamos amáveis quanto aqueles que julgamos não amáveis. Simplesmente amar!
É Natal! Alegremo-nos! O mesmo Jesus que nasceu em Belém nasce aqui no Brasil também.

Luiz Felipe Xavier.

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

A SOCIEDADE DO CANSAÇO E A ÚNICA COISA NECESSÁRIA

Ao que parece, estamos vivendo na chamada “Sociedade do Cansaço”. Um dos autores que nos ajudam a entender melhor este novo arranjo social é Byung-Chul Han, coreano radicado na Alemanha, onde ensina Filosofia e Estudos Culturais na universidade de Berlim. Descrevendo um dos aspectos dessa nossa sociedade, ele afirma: “O excesso de positividade se manifesta também como excesso de estímulos, informações e impulsos. Modifica radicalmente a estrutura e economia da atenção. Com isso se fragmenta e destrói a atenção. Também a crescente sobrecarga de trabalho torna necessária uma técnica específica relacionada ao tempo e à atenção, que tem efeitos novamente na estrutura da atenção. A técnica temporal e de atenção multitasking (multitarefa) não representa nenhum progresso civilizatório. A multitarefa não é uma capacidade para a qual só seria capaz o homem na sociedade trabalhista e de informação pós-moderna. Trata-se antes de um retrocesso.”.
Se Han está certo, o excesso de estímulos, informações e impulsos nos transforma em pessoas desatentas. Além disso, paradoxalmente, a necessidade de desenvolvermos a técnica da multitarefa implica retrocesso. Logo, nós podemos dizer que tanto uma coisa quanto a outra desintegram o nosso ser e adoecem a nossa espiritualidade. Diante dessa constatação, como reagir? Talvez o encontro de Jesus com Marta e com Maria nos apresente ensinamentos preciosos para esse tempo de tanto cansaço em que vivemos. Por isso, hoje, precisamos ouvir novamente as palavras do Mestre.
Lucas inicia a sua narrativa com a seguinte expressão: “Caminhando Jesus e os seus discípulos”. Essa expressão faz referência à viagem em curso da Galiléia à Judéia. Ou seja, Jesus e os seus discípulos estão em direção à Jerusalém. Sem especificar em qual, Lucas diz que Jesus entra em certo povoado. Nesse povoado, uma mulher de nome Marta o recebe. Implicitamente, esta recepção se dá em sua casa. Lucas não informa a duração da estadia de Jesus ali, mas afirma que Marta tem uma irmã chamada Maria. A partir daqui se estabelece o contraste entre as duas.
Na presença de Jesus, Maria tem uma atitude completamente diferente da atitude de Marta. Lucas diz que Maria, sentada aos pés do Senhor, ouvia as palavras dele. Marta, por sua vez, está envolvida em muito serviço. Se Marta é a anfitriã perfeita, Maria é o modelo acabado do discípulo. Diante de Jesus, se Marta sente-se obrigada a agir como uma mulher judia do século I, Maria sente-se absolutamente livre para não fazê-lo, pelo menos neste momento. Esta, sentada aos pés do Senhor, ouve as palavras dele.
Essa atitude de Maria incomoda tanto a Marta que esta se dirige a Jesus. Tendo se aproximado dele, ela pergunta: Senhor, não te importas que minha irmã tenha me deixado sozinha com o serviço? Como se não bastasse, ela continua: Dize-lhe que me ajude! Novamente, Marta está sendo inteiramente coerente com a cultura dos seus dias, uma cultura na qual as mulheres fazem exatamente o que ela está fazendo: cuidar da casa e servir aos homens.
Gentilmente, Jesus responde a Marta, dizendo: “Marta! Marta! Você está preocupada e inquieta com muitas coisas; todavia apenas uma é necessária. Maria escolheu a boa parte, e esta não lhe será tirada.” (Lc. 10:41-42). Aqui, um detalhe é muito importante. Nos dias de Jesus, o sentar-se para ouvir é a atitude do discípulo homem em relação ao seu mestre homem. À mulher, esta atitude não é permitida. Assim, ao permitir e elogiar a atitude de Maria, Jesus está admitindo e reconhecendo o discipulado tanto de homens quanto de mulheres.
Em síntese, esse encontro com Marta e com Maria acentua especialmente o discipulado e a escuta da palavra de Jesus. Vale ressaltar que este não desqualifica o serviço de Marta, porém, insiste que suas preocupações e angústias podem estar fora de lugar. Isso porque, por um lado, um serviço, como o de Marta, que não presta a suficiente atenção à palavra não tem nenhuma garantia de continuidade efetiva. Por outro lado, estar à escuta da palavra, como Maria, é um bem duradouro que nunca será retirado do verdadeiro discípulo de Jesus.
Portanto, fica evidente que Lucas 10:38-42 é significativo e relevante para os cristãos atuais. Em um mundo marcado pela carência de bons e de belos referenciais, os cristãos de hoje são chamados a reconhecer em Jesus o seu Mestre e a obedecê-lo em tudo. Em um mundo marcado pela agitação e pelo consequente cansaço, os cristãos de hoje também são chamados a humildemente aquietaram-se na presença de Jesus. E, por fim, em um mundo marcado por muitas distrações, os cristãos de hoje são ainda chamados a considerar atentamente as palavras de Jesus e a descobrir que esta é a única coisa realmente necessária nesta vida.

Que assim seja, pela integralidade do nosso ser e pela saúde da nossa espiritualidade!

Luiz Felipe Xavier.

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

O CUIDADO DOS POBRES NO ANTIGO TESTAMENTO

O tema desta primeira reflexão é o cuidado dos pobres, também chamados “necessitados”, “vulneráveis”, “marginalizados”, “excluídos”, etc.. Uma leitura atenta das Escrituras Sagradas deixa claro que Deus deseja que sejamos seus parceiros no cuidado dos pobres. No Antigo Testamento, este desejo pode ser observado nos três períodos da história do povo de Israel.

Antigo Israel

O período denominado “antigo Israel” vai das origens à monarquia (reis). Deus cria tudo, especialmente o ser humano: homem e mulher. A imagem e semelhança confere-lhes dignidade (Gn. 1:26-27) e o “mandato cultural” confere-lhes responsabilidade (Gn. 1:28). Na sequencia narrativa encontram-se a queda, o dilúvio, a torre e Abraão – o patriarca.
O tempo dos patriarcas é marcado pelo seminomadismo e a economia é agropastoril. Nesse tempo não há pobres. A primeira experiência de pobreza do povo de Israel se dá com a escravidão no Egito. Aqui há uma importante descoberta: Deus ouve os pobres. É o que está escrito em Êxodo 2:23-25: “Muito tempo depois, morreu o rei do Egito. Os israelitas gemiam e clamavam debaixo da escravidão; e o seu clamor subiu até Deus. Ouviu Deus o lamento deles e lembrou-se da aliança que fizera com Abraão, Isaque e Jacó. Deus olhou para os israelitas e viu a situação deles.” (Êx. 2:23-25).
O tempo depois do Êxodo é marcado pelo sedentarismo e a economia é agrícola. A posse da terra será a base para as desigualdades posteriores. É nesse tempo que surgem efetivamente os pobres no povo de Israel. Logo, são necessárias leis sociais que garantam os seus direitos. Há, basicamente, quatro tipos de leis que relativizam a posse de propriedade, principal causa desta pobreza: leis contra juros; leis sobre dias e anos de descanso (Sábado, Ano Sabático e Ano do Jubileu); leis acerca de taxas, dízimos e ofertas; e outras leis referentes à justiça para os pobres. Dentre estas se destacam: mandamento que trata do sustento do pobre – Lv. 19:9-10: “Quando fizerem a colheita da sua terra, não colham até as extremidades da sua lavoura nem ajuntem as espigas caídas de sua colheita. Não passem duas vezes pela sua vinha nem apanhem as uvas que tiverem caído. Deixem-nas para o necessitado e para o estrangeiro. Eu sou o Senhor, o Deus de vocês.”; mandamento que trata do cuidado do estrangeiro – Ex. 23:9: “Não oprima o estrangeiro. Vocês sabem o que é ser estrangeiro, pois foram estrangeiros no Egito.”; mandamento que trata da subsistência e da vida do pobre – Dt. 24:6: “Não tomem as duas pedras de moinho, nem mesmo apenas a pedra de cima, como garantia de uma dívida, pois isso seria tomar como garantia o meio de subsistência do devedor.”; e mandamento que trata da imparcialidade nos tribunais – Ex. 23:6: “Não perverta o direito dos pobres em seus processos.”.

Monarquia

O período denominado “monarquia” vai da centralização do poder (reis) ao desterro (cativeiro babilônico). Nesse tempo, a economia passa a ser predominantemente urbana. Forma-se um exército nacional, emergem numerosas profissões (ref. à indústria, à construção e ao comércio), estabelece-se uma burocracia administrativa, aparece a classe dirigente, aumentam os gastos com o luxo da corte e com o harém dos reis, formam-se os latifúndios, oprimem-se os trabalhadores, e cobram-se pesados tributos sobre os povos dominados e sobre o próprio povo de Israel.
Em meio a estes graves problemas econômico-sociais surge o profetismo. A mensagem dos profetas é caracterizada pela denúncia do pecado do povo e pelo anúncio do juízo ou do livramento de Deus. No fundo, ela é um chamado à conversão. Uma das principais denúncias dos profetas tem relação direta com a extorsão – Ez. 22:29: “O povo da terra pratica extorsão e comete roubos; oprime os pobres e os necessitados e maltrata os estrangeiros, negando-lhes justiça.”; com o roubo – Mq. 2:1-2: “Ai daqueles que planejam maldade, dos que tramam o mal em suas camas! Quando alvorece, eles o executam, porque isso eles podem fazer. Cobiçam terrenos e se apoderam deles; cobiçam casas e as tomam. Fazem violência ao homem e à sua família; a ele e aos seus herdeiros.”; e com a opressão – Am. 5:10-13: “(...)  vocês odeiam aquele que defende a justiça no tribunal e detestam aquele que fala a verdade. Vocês oprimem o pobre e o forçam a entregar o trigo. Por isso, embora vocês tenham construído mansões de pedra, nelas não morarão; embora tenham plantado vinhas verdejantes, não beberão do seu vinho. Pois eu sei quantas são as suas transgressões e quão grandes são os seus pecados. Vocês oprimem o justo, recebem suborno e impedem que se faça justiça ao pobre nos tribunais. Por isso o prudente se cala em tais situações, pois é tempo de desgraças.”.
Assim, dentre outras coisas, a conversão é evidenciada pela busca de justiça para o pobre. Exemplos claros disso estão em Isaías e em Jeremias: “Lavem-se! Limpem-se! Removam suas más obras para longe da minha vista! Parem de fazer o mal, aprendam a fazer o bem! Busquem a justiça, acabem com a opressão. Lutem pelos direitos do órfão, defendam a causa da viúva.”; “O jejum que desejo não é este: soltar as correntes da injustiça, desatar as cordas do jugo, pôr em liberdade os oprimidos e romper todo jugo? Não é partilhar sua comida com o faminto, abrigar o pobre desamparado, vestir o nu que você encontrou, e não recusar ajuda ao próximo?” (Is. 1:16-17 e 58:6-7); “Ai daquele que constrói o seu palácio por meios corruptos, seus aposentos, pela injustiça, fazendo os seus compatriotas trabalharem por nada, sem pagar-lhes o devido salário. Ele diz: ‘Construirei para mim um grande palácio, com aposentos espaçosos’. Faz amplas janelas, reveste o palácio de cedro e pinta-o de vermelho. “Você acha que acumular cedro faz de você um rei? O seu pai não teve comida e bebida? Ele fez o que era justo e certo, e tudo ia bem com ele. Ele defendeu a causa do pobre e do necessitado, e, assim, tudo corria bem. Não é isso que significa conhecer-me?”, declara o Senhor . “Mas você não vê nem pensa noutra coisa além de lucro desonesto, derramar sangue inocente, opressão e extorsão”.” (Jr. 22:13-17).
Além da busca de justiça para o pobre, a conversão também é evidenciada pela busca do bem estar da cidade. Jeremias 29:7 ordena isso: “Busquem a prosperidade da cidade para a qual eu os deportei e orem ao Senhor em favor dela, porque a prosperidade de vocês depende da prosperidade dela.”.

Judaísmo

O período denominado “judaísmo” vai do desterro (cativeiro babilônico) até os dias de Jesus. Neste tempo, para aqueles que são exilados e retornam, a economia continua sendo predominantemente, não exclusivamente, urbana (ref. à indústria e ao comércio). Não há mais reis em Israel, o povo se encontra sob algum império (persa, grego ou romano) e sob pesadas cargas tributárias, os judeus ricos – latifundiários – exploram os judeus pobres – trabalhadores. Neemias 5:1-5 é um quadro deste tempo: “Ora, o povo, homens e mulheres, começou a reclamar muito de seus irmãos judeus. Alguns diziam: “Nós, nossos filhos e nossas filhas somos numerosos; precisamos de trigo para comer e continuar vivos”. Outros diziam: “Tivemos que penhorar nossas terras, nossas vinhas e nossas casas para conseguir trigo para matar a fome”. E havia ainda outros que diziam: “Tivemos que tomar dinheiro emprestado para pagar o imposto cobrado sobre as nossas terras e as nossas vinhas. Apesar de sermos do mesmo sangue dos nossos compatriotas, e de nossos filhos serem tão bons quanto os deles, ainda assim temos que sujeitar os nossos filhos e as nossas filhas à escravidão. E, de fato, algumas de nossas filhas já foram entregues como escravas e não podemos fazer nada, pois as nossas terras e as nossas vinhas pertencem a outros”.”.
De modo geral, a literatura poética e de sabedoria apresenta uma reflexão sobre riqueza e pobreza da perspectiva dos ricos. Porém, o estilo proverbial de grande parte dessa literatura é de origem popular. Por exemplo: Provérbios 14:21: “Quem despreza o próximo comete pecado, mas como é feliz quem trata com bondade os necessitados!”; Provérbios 31:8-9: “Erga a voz em favor dos que não podem defender-se, seja o defensor de todos os desamparados. Erga a voz e julgue com justiça; defenda os direitos dos pobres e dos necessitados.”; Provérbios 30:8b-9: “(...) não me dês nem pobreza nem riqueza; dá-me apenas o alimento necessário. Se não, tendo demais, eu te negaria e te deixaria, e diria: ‘Quem é o Senhor?’ Se eu ficasse pobre, poderia vir a roubar, desonrando assim o nome do meu Deus.”.

Que Deus, por sua graça, converta o nosso coração ao cuidado dos pobres!

Luiz Felipe Xavier.