quarta-feira, 6 de março de 2019

A QUE COMPARAREMOS O REINO DE DEUS?


Certa vez, Jesus contou duas parábolas: a do Grão de Mostarda e a do Fermento (Lc. 13:18-21). Essas duas parábolas tratam do Reino de Deus. Em poucas palavras, o Reino de Deus é o governo de Deus. Deus governa de direito sobre toda a sua criação e de fato sobre tudo e sobre todos aqueles que estão sob a sua vontade. Logo, o Reino de Deus já está presente em nós e entre nós, mas ainda não em sua plenitude. A boa notícia é que esse Reino está acessível a todos que se arrependem e creem. Em quase tudo, os valores do Reino de Deus são opostos aos valores dos reinos deste mundo. É por isso que aqueles que entram nesse Reino são transformados e recebem a missão de transformar o seu entorno. Assim, mesmo que não percebamos, o Reino de Deus está crescendo. Nas parábolas do Grão de Mostarda e do Fermento, encontramos dois aspectos desse crescimento.

O crescimento do Reino de Deus é grandioso.

Este é o princípio espiritual da Parábola do Grão de Mostarda. Nessa parábola, Jesus compara o Reino de Deus ao grão de mostarda que um homem semeou em sua horta. No relato de Lucas, Jesus estabelece apenas um contraste entre o pequeno e o grande. Um grão de mostarda cresce e se transforma em uma árvore. Tanto no mundo judeu quanto no mundo grego-romano, o grão de mostarda é proverbialmente conhecido pelo seu pequeno tamanho. Contudo, Jesus diz que ele “cresceu e se tornou uma árvore, e as aves do céu fizeram ninhos em seus ramos”. Nos relatos de Mateus e Marcos, Jesus estabelece outro contraste entre menor e maior. O grão de mostarda é a “menor semente”, entretanto, torna-se a “maior de todas as hortaliças”. Parafraseando as palavras de Jesus nesta parábola, George E. Ladd declara: “Não deixe que a aparente irrelevância o engane. Não desanime. Virá o tempo em que esse mesmo Reino de Deus, agora presente como uma semente minúscula, será um grande arbusto, tão grande que as aves do céu virão e se alojarão em seus ramos.”.
O Reino de Deus cresce grandiosamente em nós... Isso porque o Espírito Santo promove o nosso crescimento espiritual. Crescemos espiritualmente à medida que somos conformados à imagem de Cristo. Esse ser conformado à imagem de Cristo é um processo gradual e progressivo. O Reino de Deus também cresce grandiosamente entre nós... Isso porque Deus promove transformação integral. À medida que cresce, o Reino de Deus vai transformando tudo.

O crescimento do Reino de Deus é oculto

Este é o princípio espiritual da Parábola do Fermento. Nessa parábola, Jesus compara o Reino de Deus ao fermento que uma mulher misturou com uma grande quantidade de farinha. Sobre isso, José A. Pagola comenta: “Todas as semanas, na véspera do sábado, as mulheres se levantavam cedo e saíam ao pátio para fazer o pão. Antes do amanhecer, já estavam preparando a massa, introduziam depois o fermento fresco para fermentá-la, cobriam tudo com um pano de lã e esperavam que a massa crescesse lenta e silenciosamente. Enquanto isso acendiam o fogo e esquentavam a pedra sobre a qual assariam o pão. Da cama, os filhos podiam sentir o aroma inconfundível dos pães preparados amorosamente por suas mães. Jesus não havia esquecido esta cena familiar.”.
Depois de algum tempo, o resultado de se misturar fermento com farinha é uma massa fermentada. Aqui, Jesus estabelece mais um contraste, desta vez, entre o oculto e o revelado. O fermento age sobre a farinha de maneira oculta. Somente a massa toda fermentada é que revela esta ação. Assim também é a ação do Reino de Deus. Como fermento opera na massa de maneira irreversível, o Reino de Deus opera neste mundo de maneira irreversível. Comentando esta parábola, Ladd afirma: “Aqui, fermento não se refere ao mal. Ilustra a verdade de que o Reino de Deus, por vezes, parece ser uma coisa pequena, irrelevante. O mundo pode desprezá-lo e ignorá-lo. O que um carpinteiro galileu e uma dúzia de judeus poderia realizar? Mas não desanimem, dia virá em que o Reino de Deus ocupará toda a terra, da mesma forma que o fermento enche toda a tigela. Os propósitos de Deus não serão frustrados.”.
O Reino de Deus cresce ocultamente em nós... Isso porque o Espírito Santo potencializa as nossas pequenas ações em relação à vontade de Deus. À medida que essas pequenas ações são potencializadas, grandes transformações acontecem. Ao longo de todo esse processo, podemos discernir a ação oculta de Deus e celebrar cada mudança, por menor que seja. O Reino de Deus também cresce ocultamente entre nós... Isso porque Deus nos envia como agentes de transformação deste mundo. Neste sentido, José A. Pagola nos desafia a agir “como ‘fermento’ que introduz no mundo a sua verdade, sua justiça e seu amor de maneira humilde, mas com força transformadora. Nós, seguidores de Jesus não podemos apresentar-nos nessa sociedade como ‘de fora’, tratando de impor-nos para dominar e controlar aqueles que não pensam como nós. Devemos viver ‘dentro’ da sociedade, compartilhando as incertezas, crises e contradições do mundo atual, e trazendo nossa vida transformada pelo Evangelho. Temos de aprender a viver nossa fé ‘em minoria’ como testemunhas fiéis de Jesus. O que a igreja precisa não é de mais poder social ou político, mas de mais humildade para deixar-se transformar por Jesus e poder ser o fermento de um mundo mais humano.”.

Que o Reino de Deus cresça em nós e entre nós!

Luiz Felipe Xavier.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

VIVENDO SOB O DOMÍNIO DA GRAÇA

A Parábola dos Trabalhadores da Vinha está presente apenas em Mateus e, neste Evangelho, é a única que se encontra na viagem de Jesus da Galiléia à Judéia. Ela é uma ilustração da inversão que se dá no Reino dos Céus ou Reino de Deus. Nesse Reino, os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos. Isso porque, dentre outras coisas, o Reino dos céus ou Reino de Deus é o domínio da graça, da gratuidade. Para vivermos sob esse domínio, precisamos superar três tendências muito comuns em nós mesmos e no nosso entorno.

Tendência ao mérito

Jesus começa a Parábola dos Trabalhadores da Vinha comparando o Reino dos céus a um proprietário que sai para contratar trabalhadores para a sua vinha. Esses trabalhadores estão na praça, esperando por alguém que os contrate por um dia. O expediente diário é de doze horas, de seis da manhã a seis da tarde, de sol a sol. Por essas doze horas de trabalho recebe-se um denário, o salário de um dia. O proprietário contrata trabalhadores em cinco momentos. Às 06h, o combinado é pagar um denário pelo trabalho. Às 09h, o combinado é pagar o que for justo. Às 12 e às 15h, o combinado é o mesmo: pagar o que for justo. E, às 17h, não há combinado.  Os trabalhadores da primeira contratação esperam receber um denário. Os trabalhadores das demais contratações esperam receber as frações de um denário, proporcionais às horas dedicadas. Ou seja, todos esperam receber de acordo com os seus méritos.
A nossa tendência a viver sob o domínio dos méritos nos impede de viver sob o domínio da graça. Quase tudo no nosso entorno opera na lógica do mérito-retribuição (p. ex.: aprovações, contratações, promoções, etc.). E como vivemos sob o domínio do mérito, tendemos a transferir esse domínio à nossa relação com Deus. Porém, em assim fazendo, estamos impedidos de viver sob o domínio da graça. A boa notícia é que Deus não nos trata segundo os nossos méritos. Assim sendo, a relação dele conosco é baseada na graça, expressão do seu amor constante.

Tendência à comparação

Por volta das 18h, ao cair da tarde, o dono da vinha diz ao seu administrador que chame os trabalhadores e pague-lhes o salário. Até aqui, tudo bem. Daqui em diante, uma grande surpresa. A orientação do proprietário ao seu administrador quanto ao pagamento é a seguinte: comece com os últimos contratados e termine com os primeiros – essa é a surpresa. Ele deseja que os que foram contratados primeiro observem o pagamento dos que foram contratos por último. Imaginemos a cena... “Trabalhadores contratados às 17h: um denário.” Os contratados às 06h. fazem contas. “Trabalhadores contratados às 15h: um denário.” Os contratados às 06h olham uns para os outros. “Trabalhadores contratados às 12h: um denário.” Os contratados às 06h são tomados por incompreensão. “Trabalhadores contratados às 09h: um denário.” Os contratados às 06h, ficam apreensivos. “E trabalhadores contratados as 06h: um denário.” Diz o texto que estes “esperavam receber mais”. Se o combinado foi um denário, por que eles esperam receber mais? Porque eles se comparam com os outros. Eles se consideram merecedores de um salário superior ao dos outros.
A nossa tendência a viver sob o domínio da comparação nos impede de viver sob o domínio da graça. Quase tudo no nosso entorno opera também na lógica da comparação-superação. E como vivemos sob o domínio da comparação, tendemos a transferir esse domínio à nossa relação com o nosso próximo. Todavia, em assim fazendo, estamos impedidos de viver sob o domínio da graça. A boa notícia é que somos todos iguais diante de Deus. Consequentemente, a nossa relação com o nosso próximo é baseada na graça, expressa no alegrar-se com os que se alegram.

Tendência à ingratidão

Quando recebem o seu denário, os trabalhadores contratados às 06h começam a se queixar do proprietário da vinha. Ao invés de serem tomados por gratidão, são tomados por ingratidão. Essa ingratidão é traduzida em palavras: “Estes homens contratados por último trabalharam apenas uma hora, e o senhor os igualou a nós, que suportamos o peso do trabalho e o calor do dia”. Estaria o proprietário da vinha sendo injusto com os trabalhadores que foram contratados às 06h? A resposta é: não. Isso porque, como diz o ditado, o que é combinado não é caro. Estaria, então, o proprietário da vinha sendo justo com os trabalhadores que foram contratados nas demais horas do dia? A resposta também é: não. Isso porque justo seria pagar as frações de horas trabalhadas. Se o proprietário não está sendo justo, o que ele está sendo? A resposta é: gracioso. A graça transcende a justiça. Isso fica evidente na sua resposta aos trabalhadores queixosos: “Amigo, não estou sendo injusto com você. Você não concordou em trabalhar por um denário? Receba o que é seu e vá. Eu quero dar ao que foi contratado por último o mesmo que dei a você. Não tenho o direito de fazer o que quero com o meu dinheiro? Ou você está com inveja porque sou generoso?” A graça do proprietário é expressa em generosidade aos que foram contratados por último. Por isso, Jesus conclui a parábola com as seguintes palavras: “Assim, os últimos serão primeiros, e os primeiros serão últimos”.
A nossa tendência a viver sob o domínio da ingratidão nos impede de viver sob o domínio da graça. Quase tudo no nosso entorno opera ainda na lógica da ingratidão-obrigação. E como vivemos sob o domínio da ingratidão, tendemos a transferir esse domínio à nossa relação com Deus e com o próximo. Contudo, em assim fazendo, estamos impedidos de viver sob o domínio da graça. A boa notícia é que somos todos alvos da bondade de Deus. Portanto, a nossa relação com ele e com o próximo é baseada na graça, expressa em obediência e serviço.

Que Deus nos ajude a viver sob o domínio da graça!

Luiz Felipe Xavier.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

O PAI DE JESUS E NOSSO PAI

A Parábola dos Lavradores Maus está presente em Mateus, Marcos e Lucas. Embora os relatos dos três evangelistas sejam diferentes, sua mensagem é única: uma vinha é arrendada; o dono envia seus servos e estes são maltratados; o dono envia seu filho; este é assassinado; a vinha é dada a outros. Nos três Evangelhos, ela se encontra no mesmo contexto, a saber, na última semana de Jesus em Jerusalém. Nessa última semana, os conflitos com os líderes religiosos de Israel se intensificam e culminam na prisão e morte de Jesus. De todas as parábolas que ele contou, essa é a única que possui um conteúdo explicitamente cristológico. Nela, enquanto conta a sua própria história, Jesus nos revela três atributos do seu Pai e nosso Pai.

Paciência

Certo homem planta uma vinha, a arrenda e se ausenta. É possível que Jesus tenha em mente a Canção da Vinha de Isaías 5:1-7. Nessa canção, Deus planta uma vinha e espera que ela dê uvas boas. Mas, contrariando todas as suas expectativas, ela só dá uvas azedas. De acordo com o profeta Isaías, essa vinha é o povo de Deus. As uvas boas que Deus espera são justiça e retidão. As uvas azedas que o povo dá são violência e sofrimento. Ao que parece, entre a Canção da Vinha e a Parábola dos Lavradores Maus há dois elementos comuns e dois novos. Os elementos comuns são Deus como o proprietário da vinha e esta como o povo de Deus. Os elementos novos são os arrendatários, que correspondem aos líderes de Israel, e o filho amado, que corresponde a Jesus.
Na época da colheita, o proprietário envia o primeiro servo para receber parte do fruto. Os arrendatários o espancam e o mandam embora sem nada. O proprietário envia o segundo servo. Os arrendatários o espancam, o humilham e o mandam embora sem nada. O proprietário envia o terceiro servo. Os arrendatários o ferem e o expulsam da vinha. Este tratamento violento dos arrendatários em relação aos três servos do proprietário é semelhante ao tratamento violento de Jerusalém em relação aos profetas e aos enviados de Deus. Apesar de tudo, o proprietário continua paciente. Com isso, Jesus deixa claro que o nosso Pai é muito paciente. Esta paciência é evidenciada na sua persistência em relação a nós.

Amor

A parábola segue e o proprietário da vinha diz a si mesmo: “Que farei? Mandarei meu filho amado; quem sabe o respeitarão”. Aqui, a expressão “filho amado” merece destaque. No Evangelho de Lucas, essa expressão aparece três vezes: no batismo de Jesus, na sua transfiguração e aqui. Logo, a expressão “filho amado” parece ser uma clara referência a Jesus, o enviado do Pai ao mundo. Vale ressaltar que este envio encontra-se no centro da parábola. Porém, objetivando tomar posse da herança do filho, os arrendatários lançam-no fora da vinha e matam-no. Nesta descrição estão implícitos dois importantes aspectos relacionados à pessoa de Jesus. O primeiro é a encarnação. O Filho é enviado pelo Pai ao mundo. O segundo é a expiação. O Filho será morto pelos pecados da humanidade. Com isso, Jesus também deixa claro que o nosso Pai é muito amoroso. Este amor é evidenciado na sua misericórdia e na sua graça para conosco.

Zelo

A parábola termina com uma pergunta e com uma resposta. A pergunta é: o que lhes fará então o dono da vinha? No passado e no presente, ele tem agido com paciência e com amor. A resposta é: virá, matará aqueles lavradores e dará a vinha a outros. No futuro, ele agirá com juízo contra esses lavradores. Ao que parece, porque os líderes de Israel não correspondem à expectativa de Deus em relação a eles, a liderança do povo de Deus será retirada deles e dada a outros líderes. Nisso consiste o juízo. Esses outros líderes são aqueles que se submetem à autoridade de Jesus e dão frutos ao seu Pai. Em reação, o povo diz: “Que isso nunca aconteça!”. Olhando fixamente para eles, Jesus lança mão do Salmo 118:22 para aplicar a mensagem da parábola. Ele afirma: “Então, qual é o significado do que está escrito? ‘A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular’. Todo o que cair sobre esta pedra será despedaçado, e aquele sobre quem ela cair será reduzido a pó”.
Por um lado, partindo dessa aplicação, fica evidente que a atitude em relação a Jesus no presente determinará a situação dos líderes religiosos no futuro. Ou seja, uma vez que estes o rejeitam, sofrerão o juízo. Por outro lado, também fica claro que o povo deve se submeter a Jesus e dar frutos ao seu Pai. Aqui está o princípio espiritual da parábola! A atitude que o Pai espera do seu povo é a submissão ao seu Filho. O texto termina com esses líderes religiosos – mestres da lei e chefes dos sacerdotes – vestindo a carapuça. Eles percebem que Jesus está falando contra eles e, por isso, procuram encontrar um meio de prendê-lo. Todavia, ainda não podem fazer isso porque temem ao povo. Quando puderem, estarão apenas confirmando as palavras dessa parábola. Com isso, Jesus ainda deixa claro que o nosso Pai é muito zeloso. Este zelo é evidenciado pela liderança espiritual à qual ele delega o nosso cuidado.

Por fim, uma pergunta: por que é importante conhecer os atributos do nosso Pai? Porque a nossa concepção sobre ele determinará a maneira como nos relacionaremos com ele. O nosso Pai é paciente, amoroso e zeloso. Que assim possamos concebê-lo e que assim nos relacionemos com ele!

Luiz Felipe Xavier.

sábado, 17 de novembro de 2018

TRANSFORMANDO INDIFERENÇA EM COMPAIXÃO

Viajando da Galiléia à Judéia, Jesus ensina muitas coisas. Dentre elas, ensina que só há dois modos possíveis de vida: o viver baseado no amor ao Dinheiro (Mamom – um deus fake) ou o viver baseado no amor a Deus. O primeiro modo é marcado por ansiedade, por ganância e, como veremos, por indiferença. O segundo modo é marcado por fé, por generosidade e, como também veremos, por compaixão. A nós, resta a pergunta: Como temos vivido, amando a Deus ou ao Dinheiro? Os discípulos de Jesus são aqueles que vivem baseados no amor a Deus, transformando indiferença em compaixão. Para tal, eles precisam desenvolver três percepções.

A percepção do necessitado

A parábola começa com a descrição dos seus personagens principais: o rico e Lázaro. O rico se veste de púrpura e de linho fino, e vive no luxo todos os dias. Ele é coberto por vestes caríssimas e tem abundância de comida diariamente. O mendigo Lázaro é coberto de chagas e anseia comer o cai da mesa do rico. Ele é coberto por feridas e tem escassez de comida. Três detalhes chamam a atenção na descrição dos personagens. Primeiro, há um portão que separa o rico e Lázaro. Sobre esse texto, José Antonio Pagola comenta: “O olhar penetrante de Jesus está desmascarando a realidade. As classes mais poderosas e os estratos mais miseráveis parecem pertencer à mesma sociedade, mas estão separados por uma barreira invisível: essa porta que o rico nunca atravessa para aproximar-se de Lázaro.”. Segundo, Lázaro é nomeado, mas o rico não. Em todas as parábolas de Jesus, o único personagem nomeado é Lázaro. O nome “Lázaro” significa “aquele a quem Deus ajuda”. Na parábola, vemos que o significado do nome corresponde à situação vivida pelo personagem. Terceiro, os cães se importam com Lázaro, porém, o rico não. Levando em consideração o contexto da época, Kenneth Bailey sugere que esses cães são os cães de guarda da casa do rico. Eles se alimentam do que cai da mesa do seu dono, Lázaro não. Mais do que isso, eles se importam com Lázaro, seu dono não. Aqui, o que mais nos interessa é que Jesus denuncia a indiferença do rico em relação a Lázaro, o necessitado que diariamente é colocado à sua porta e ele não vê. Logo, como discípulos de Jesus, somos desafiados a perceber o necessitado. Uma vez que vivemos numa espécie de “bolha”, os pobres podem ser para nós invisíveis.

A percepção da morte

A parábola segue e chega o dia em que tanto o rico quanto Lázaro morrem. O mendigo Lázaro morre e é levado pelos anjos para junto de Abraão. O “seio de Abraão” é interpretado como o lugar pós-morte dos justos. Ou seja, estar junto de Abraão é estar em um lugar de bem-aventurança a espera da vindicação eterna. O texto não explica porque Lázaro vai para o “seio de Abraão”; ao que parece, é porque ele confia em Deus e na sua ajuda (uma possível referência ao seu nome). O rico também morre, é sepultado e acha-se no Hades. O Hades é interpretado como o lugar pós-morte dos injustos. Isto é, estar no Hades é estar em um lugar de tormento a espera do juízo final. O texto também não explica porque o rico vai para o Hades; ao que parece, é porque ele confia em si mesmo e nas suas riquezas, e não se importa com o necessitado (uma possível referência à sua ostentação e à sua indiferença). Aqui, o que mais nos interessa é que, depois da morte inevitável, a barreira invisível que separava o rico e Lázaro torna-se um abismo intransponível e definitivo. Assim, como discípulos de Jesus, somos desafiados perceber a morte. Não faz sentido vivermos acumulando e ostentando porque a morte é uma realidade inevitável. Além disso, a vida de acumulação e ostentação é autocentrada (centrada em nós mesmos), ao passo que vida que Jesus nos propõe é altercentrada (centrada no próximo). Quem são os necessitados que estão próximos a nós e como podemos ajudá-los efetivamente?

A percepção da Palavra

A parábola se encerra com um diálogo entre o rico e Abraão. Esse diálogo começa com o rico usando a expressão que é própria dos mendigos: ‘Pai Abraão, tem misericórdia de mim (...)’ – nos lembramos da expressão de Bartimeu, o cego mendigo. O rico deseja que Abraão mande Lázaro aliviar parte do seu sofrimento. Em resposta ao rico, Abraão anuncia uma inversão: Durante a vida, o rico recebeu coisas boas e Lázaro recebeu coisas más; agora, Lázaro está sendo consolado e o rico está em sofrimento. Pior do que isso, como já dito, há entre eles um abismo intransponível e definitivo. Em resposta a Abraão, o rico expressa um novo desejo: Ele quer que Abraão mande Lázaro avisar seus irmãos sobre a sua situação para que eles se arrependam e tenham um destino diferente do seu. Notem: Mesmo em sofrimento, a fala do rico tem um tom arrogante e autocentrado. Em resposta ao rico, Abraão é incisivo: ‘Eles têm Moisés e os Profetas; que os ouçam’. Tanto Moisés quanto os profetas são claríssimos em relação à compaixão que o povo de Deus deve ter com os necessitados. Por exemplo: “Quando fizerem a colheita da sua terra, não colham até as extremidades da sua lavoura, nem ajuntem as espigas caídas de sua colheita. Não passem duas vezes pela sua vinha, nem apanhem as uvas que tiverem caído. Deixem para o necessitado e para o estrangeiro. Eu sou o SENHOR, o Deus de vocês. (...)” (Lv. 19:9-10). ““O jejum que desejo não é este: soltar as correntes da injustiça, desatar as cordas do jugo, pôr em liberdade os oprimidos e romper todo jugo. Não é partilhar sua comida com o faminto, abrigar o pobre desamparado, vestir o nu que você encontrou, e não recusar ajuda ao próximo? (...)”.” (Is. 58:6-7). Em resposta a Abraão, o rico insiste que se alguém ressuscitasse dos mortos e fosse até eles, eles se arrependeriam. Por fim, em resposta ao rico, Abraão reforça: ‘Se não ouvem a Moisés e aos Profetas, tampouco se deixarão convencer, ainda que ressuscite alguém dentre os mortos’. Aqui, o que mais nos interessa é que ouvir a Palavra é sinônimo de obedecer a Palavra. Assim sendo, como discípulos de Jesus, somos desafiados a perceber a Palavra. Essa Palavra que é claríssima: Sejam compassivos com os necessitados. Todavia, a nossa tendência é levantar objeções que justifiquem a nossa desobediência. Em assim fazendo, resta-nos o arrependimento, o discernimento, a sabedoria e a ação.

Que Deus, por sua graça, nos encha de compaixão para com os necessitados!

Luiz Felipe Xavier.

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

CHOCADO

Esta é a palavra que traduz o meu sentimento neste momento.

A quantidade de votos que o Bolsonaro recebeu é impensável e inimaginável.

Até pouquíssimo tempo atrás, quem pensaria e imaginaria que alguém como ele poderia ser votado por tanta gente?

...

Ao longo do primeiro turno das eleições, conversei com muitas pessoas.

Muitas destas conversas foram com eleitores do Bolsonaro.

Por incrível que pareça, não conheço uma pessoa sequer que votou nele por ele mesmo e por suas propostas.

NENHUMA!

A razão é óbvia!

Ele é um ser humano repugnante e não tem a menor capacidade propositiva, exceto para o que mau.

Então, por que tantas pessoas votaram e, possivelmente, votarão no Bolsonaro?

Seria por um enlouquecimento geral?

Quem sabe por um entorpecimento coletivo?

Todas as pessoas com as quais conversei votaram no Bolsonaro por DUAS RAZÕES.


A primeira, e a mais forte, é o ANTI-PETISMO.

Antes que você me pergunte, já te respondo: não, no primeiro turno, não votei no Haddad.

Não sou petista.

Mas também não sou anti-petista.

Isso é possível!

Você pode acreditar!

Consigo discernir as contradições e os equívocos do PT.

Talvez, o que me diferencie de um eleitor anti-petista do Bolsonaro é que consigo reconhecer os acertos e as transformações promovidos pelos governos petistas.

Considerando que a corrupção no Brasil é sistêmica e abrangente, honestamente, penso que o PT no poder mais acertou do que se equivocou.

Embora você possa discordar de mim, e te respeito, a história e os números comprovam esta minha consideração.

Tenho para mim, que O ANTI-PETISMO TRANSFORMOU-SE NO MAIOR ÍDOLO DA CULTURA POLÍTICA DO NOSSO PAÍS.

Um ídolo muito sútil, às avessas.

No altar do anti-petismo, sacrifica-se a razão e o bom senso.

Sacrifica-se a história e a memória.

Para nós, cristãos, sacrifica-se a consciência e os valores do Evangelho de Jesus Cristo de Nazaré, especialmente o amor.

Se este ídolo não for profanado nos próximos dias, possivelmente, o que nos esperará serão tempos terríveis.

Dias de injustiça, de violência e de tristeza.

Dias de moralismo, de misoginia, de racismo, de xenofobia, de autoritarismo e de muitas outras mazelas.


A segunda razão é o DISCURSO DA MORAL E DOS BONS COSTUMES.

Por que discurso?

Porque de moral e de bons costumes, que são excelentes, o Bolsonaro não tem absolutamente NADA.

Ele admira ditadura, homenageia torturador, encoraja assassinatos, rebaixa mulheres, deseduca crianças, injuria negros, despreza indígenas e ofende homossexuais, entre outras coisas mais.

Diante disso, alguns dos seus pouquíssimos discursos com os quais qualquer pessoa poderia concordar soam como uma grande HIPOCRISIA.

O Bolsonaro é um ser que DESTILA ÓDIO E BLASFEMA CONTRA O SANTO NOME DE DEUS.

Certamente, o deus que ele declara estar acima de todos não é o Deus da Bíblia.

Isso sem falar que ele representa a perda da soberania nacional, dos direitos sociais, etc..

...

Que Deus, em tempo, nos dê ocasião de ARREPENDIMENTO!

Que o Brasil, de modo geral, e a igreja de modo específico, se arrependam!

Se por misericórdia e graça, não formos governados pelo Bolsonaro, que dê também ao PT ocasião de arrependimento!

Que o PT se arrependa da corrupção que praticou, dos apoios indevidos que deu, de algumas pautas que defendeu e, principalmente, das oportunidades que perdeu!

Que assim seja!

Luiz Felipe Xavier.

terça-feira, 2 de outubro de 2018

TRANSFORMANDO GANÂNCIA EM GENEROSIDADE

Jesus é um mestre que conta muitas parábolas. Em Lucas 12:13-21, ele conta a Parábola do Rico Insensato. Nessa parábola, Jesus nos ensina que precisamos ficar de sobreaviso contra todo tipo de ganância, pois a nossa vida não consiste na abundância dos nossos bens. Logo, fica evidente que Deus deseja que desenvolvamos uma relação saudável com os bens materiais. Para tal, precisamos considerar três advertências.

A ganância é uma enfermidade espiritual

Jesus está cercado por uma multidão. No meio dessa multidão, alguém diz: “Mestre, dize a meu irmão que divida a herança comigo”. Espera-se de um mestre tanto o conhecimento da lei quanto os pareceres legais. E Jesus responde: “Homem, quem me designou juiz ou árbitro [melhor seria “partidor”] entre vocês?”. Semelhantemente, espera-se do juiz uma sentença e do partidor a execução dessa sentença. Assim, voltando-se para os demais presentes, Jesus declara: “Cuidado! Fiquem de sobreaviso contra todo tipo de ganância; a vida de um homem não consiste na quantidade dos seus bens”. Este é o princípio espiritual que será ilustrado pela Parábola do Rico Insensato. Todos sabemos que a ganância é o desejo ávido e insaciável de ter sempre mais. Assim sendo, a advertência de Jesus é exatamente contra esse desejo. Isso porque a ganância é uma enfermidade espiritual terrível. Naquele contexto, a expressão “Tomem cuidado!” era utilizada para os cuidados médicos. Por exemplo: “Tomem cuidado com os leprosos!”. Aqui surge uma importante pergunta: por que é necessário afastar-se ou proteger-se da ganância? A resposta de Jesus é muito clara: porque a vida que realmente importa não consiste na quantidade de bens que se acumula.
Uma vez que estamos em uma zona de epidemia de ganância, precisamos tomar muito cuidado. A mensagem do nosso entorno é: trabalhe mais, ganhe mais, acumule mais, consuma mais e finalmente você será reconhecido como alguém bem sucedido. O problema é que se vivermos nesta pegada, jamais nos realizaremos e jamais nos pacificaremos. Isso porque de duas uma: ou estaremos inquietos para adquirir coisas novas ou estaremos enjoados das coisas que já adquirimos. Mais cedo ou mais tarde, precisaremos decidir a quem daremos razão: à mensagem do nosso entorno, que é ilusão e morte, ou à mensagem de Jesus, que é realidade e vida.

A acumulação para si mesmo é o sinal dessa enfermidade

Tendo anunciado o princípio espiritual, agora Jesus o ilustra. Para tal, ele lança mão da Parábola do Rico Insensato. Ele diz: “A terra de certo homem rico produziu muito. Ele pensou consigo mesmo: ‘O que vou fazer? Não tenho onde armazenar minha colheita’. “Então disse: ‘Já sei o que vou fazer. Vou derrubar os meus celeiros e construir outros maiores, e ali guardarei toda a minha safra e todos os meus bens. E direi a mim mesmo: Você tem grande quantidade de bens, armazenados para muitos anos. Descanse, coma, beba e alegre-se’. “Contudo, Deus lhe disse: ‘Insensato! Esta mesma noite a sua vida será exigida. Então, quem ficará com o que você preparou?’”. Consideremos a breve estória que a parábola descreve. A terra produz por si mesma. O dono dessa terra é um homem rico. Ele já tem e ainda terá mais do que o suficiente para viver. A perspectiva de ter ainda mais lhe traz um problema: o que fazer com o excedente? As duas alternativas são: acumular ou partilhar. O homem rico faz opção de acumular. Então, a acumulação para si mesmo é o sinal da enfermidade. Ele quer proteger e desfrutar os seus bens, quer segurança e bem estar. Mas Deus declara que a opção de acumular é uma expressão de loucura. É loucura porque o homem rico não tem domínio sobre a própria vida. Embora em nossas traduções não seja evidente, no texto original, Lucas brinca com as palavras de Jesus. Sobre isso, Kenneth Bailey comenta: “(...) aqui este homem rico, que acha que a sua euphoreo (abundância de bens) produzirá euphron (a vida boa), na realidade está aphron (sem mente, espírito e emoções). A sua fórmula para a boa vida é estupidez crassa.”.
Quando acumulamos riquezas, estamos em busca de segurança e de bem estar. Porém, Jesus nos chama de loucos. É loucura confiarmos mais em nossos bens materiais do que em nosso Deus. É loucura pensarmos que, porque temos muitos recursos financeiros, podemos controlar o nosso futuro. É como nos alerta o Eclesiastes: “Quem ama o dinheiro jamais terá o suficiente; quem ama as riquezas jamais ficará satisfeito com os seus rendimentos. Isso também não faz sentido.” (Ec. 5:10).

A partilha com o próximo é o tratamento dessa enfermidade

Depois de anunciar e ilustrar o princípio espiritual, Jesus conclui com as seguintes palavras: “Assim acontece com quem guarda para si riquezas, mas não é rico para com Deus”. Aqui, ele aprofunda o princípio espiritual. Guardar para si riquezas já sabemos o que é. Agora, o que é ser rico para com Deus? Jesus não explica. Só descobrimos o que é ser rico para com Deus quando discernimos o contraste presente no texto. Ou seja, ser rico para com Deus é o oposto de acumular para si riquezas. Portanto, ser rico para com Deus é partilhar o que se tem com o seu próximo. A partilha com o próximo é o tratamento da enfermidade. Paradoxalmente, quem partilha é rico.
Ouvindo atentamente essas palavras de Jesus, descobrimos que a ansiedade e a ganância são dois lados da mesma moeda. Por ser alguém que deseja controlar o futuro, o ansioso dá lugar à ganância e acumula para si riquezas. Além disso, descobrimos que a fé e a generosidade também são dois lados de outra moeda. Por ser alguém que descansa no cuidado amoroso de Deus, o crente dá lugar à generosidade e partilha o que tem com o seu próximo. Por fim, precisamos responder: estamos guardando riquezas ou sendo ricos para com Deus?

Que Deus nos ajude a ser cada vez mais ricos para com ele!

Luiz Felipe Xavier.

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

MUITO PERDÃO E MUITO AMOR

No Evangelho de Lucas, Jesus conta quatro parábolas enquanto está na Galiléia. Dessas, a única tipicamente lucana é a Parábola dos Dois Devedores (Lc. 7:36-50). Nessa parábola, Jesus nos ensina que aquele que é muito perdoado muito ama. Ele nos ensina também que o nosso amor a Deus é proporcional à nossa consciência do perdão que recebemos dele. Logo, observemos três efeitos desta experiência com o perdão de Deus.

Quem experimentou o perdão de Deus se humilha diante de Deus

Jesus é convidado para jantar na casa de um fariseu. Num dia de banquete, a casa fica aberta e os convidados ocupam a sala, onde há uma mesa longa e baixa. Ali, eles se reclinam sobre o cotovelo e mantêm os pés afastados. Geralmente, os servos e os curiosos ficam atrás do dono da casa e dos seus convidados. Enquanto o jantar acontece, uma mulher ‘pecadora’, provavelmente uma prostituta, fica sabendo que Jesus está na casa do fariseu e vai até lá. Ela traz um perfume e se coloca atrás de Jesus, no lugar dos servos e dos curiosos. Chorando, a mulher molha os pés dele com suas lágrimas, em uma atitude é de total humilhação. Como não tem uma toalha, ela solta seus cabelos e com eles enxuga os pés de Jesus. Soltar os cabelos em público é um ato vergonhoso e sedutor. Além disso, a mulher beija os pés dele, em uma expressão de honra, gratidão e submissão. Como se não bastasse, ela unge os pés de Jesus com um perfume caro que, possivelmente, usava em seus programas. De agora em diante, ela não precisará mais desse perfume. Escandalizado com o que vê, o fariseu diz a si mesmo: “Se este homem fosse profeta, saberia quem nele está tocando e que tipo de mulher ela é: uma pecadora”. Se a atitude da mulher expressa humildade e gratidão, a atitude do fariseu expressa orgulho e juízo. Com isso, aprendemos que a primeira evidência de que experimentamos o perdão de Deus é a nossa humildade diante dele e a cessação do juízo em relação ao próximo.

Quem experimentou o perdão de Deus ama a Deus

É exatamente neste momento da narrativa que Jesus conta a Parábola dos Dois Devedores a Simão: “Dois homens deviam a certo credor. Um lhe devia quinhentos denários [salário de pouco mais de um ano de trabalho] e o outro, cinquenta [salário de cerca de dois meses de trabalho]. Nenhum dos dois tinha com que lhe pagar, por isso perdoou a dívida a ambos. Qual deles o amará mais?”. Simão responde: “Suponho que aquele a quem foi perdoada a dívida maior”. Ouvindo a resposta de Simão, Jesus afirma: “Você julgou bem”. Assim, o princípio espiritual dessa parábola é claro: o nosso amor a Deus é proporcional à nossa consciência do perdão que recebemos dele. O fariseu Simão, por considerar que foi pouco perdoado, ama pouco. Já a mulher pecadora, por considerar que foi muito perdoada, ama muito. Além disso, da parábola infere-se que todos nós somos devedores a Deus. Alguns têm a consciência de que devem mais e outros a consciência de que devem menos. O problema é que nenhum de nós pode pagar o que deve a Deus. Mas, todos nós podemos receber o perdão da parte dele. Este é o Evangelho! Por sua infinita misericórdia, o Deus Santo perdoa livremente os pecadores culpados. Agora, a pergunta é: como respondemos a esse perdão? Com amor. Amor a Deus, em obediência, e amor ao próximo, em serviço. Com isso, aprendemos também que a segunda evidência de que experimentamos o perdão de Deus é o nosso amor a ele, expresso no amor ao próximo.

Quem experimentou o perdão de Deus desfruta da paz de Deus

Tendo contado a Parábola dos Dois Devedores, Jesus vira-se para a mulher e pergunta a Simão: “Vê esta mulher?”. Jesus compara as atitudes de Simão com as atitudes da mulher. Ele o faz para demonstrar quem foi mais perdoado por Deus e quem ama mais a Deus. Esta comparação baseia-se nos costumes relacionados à hospitalidade. Simão deveria ter dado água a Jesus para lavar os pés e não o deu. Em contrapartida, a mulher molhou os pés de Jesus com suas lágrimas e os enxugou com seus cabelos. Simão deveria ter saudado a Jesus com um beijo na face e não o saudou. Em contrapartida, a mulher não parou de beijar os pés de Jesus. Simão deveria ter ungido a cabeça de Jesus com óleo e não a ungiu. Em contrapartida, a mulher derramou perfume nos pés de Jesus. Ou seja, a mulher fez tudo o que Simão deveria ter feito e não fez. Assim sendo, Jesus declara: “os muitos pecados dela lhe foram perdoados; pois ela amou muito. Mas aquele a quem pouco foi perdoado, pouco ama”. Aqui, a melhor tradução seria: “os muitos pecados dela lhe foram perdoados; portanto ela amou muito”. Isso significa que o amor é consequência do perdão, não a sua causa. Por fim, Jesus faz duas afirmações libertadoras à mulher. A primeira afirmação é: “Seus pecados estão perdoados”. Quando ele diz isso, os outros convidados começam a perguntar: “Quem é este que até perdoa pecados?”. Jesus é um profeta que conhece o coração de Simão e que anuncia o perdão de Deus à mulher. A segunda afirmação é: “Sua fé a salvou; vá em paz”. Jesus deixa claro que a salvação é pela graça, recebida mediante a fé somente. Como resultado, aquele que foi salvo desfruta da paz de Deus. Com isso, ainda aprendemos que a terceira evidência de que experimentamos o perdão de Deus é o nosso desfrutar da sua paz.

Que Deus, por sua graça, nos dê a consciência de que fomos muito perdoados para que muito amemos!

Luiz Felipe Xavier.