No último feriado de Corpus Christi, a família FTL-B reuniu-se em Salvador, Bahia, para
a Consulta Nacional 2013. O propósito dessa reunião foi a reflexão sobre a
seguinte temática: “Identidade, diálogo e missão: nos vértices do tempo e na
dobradura dos acontecimentos”. Neste texto, apresento um pouco da reflexão ali
desenvolvida, bem como as minhas considerações sobre a mesma. Isso faço, não
sem antes destacar dois interessantes detalhes. Primeiro, com exceção da palavra
de abertura e dos devocionais, toda reflexão aconteceu em torno da mesa,
seguida de perguntas e respostas. Tal dinâmica, horizontalizada, deu voz a
todos os presentes. Segundo, cerca de 80% dos mais de 100 participantes eram
jovens e acadêmicos de Teologia. Dentre outras coisas, isso pode ter indicado o
cansaço da primeira geração da FTL-B e o interesse de uma nova geração pela
Teologia da Missão Integral.
Para mim, o ponto alto da Consulta Nacional
2013 foi a presença e a reflexão pastoral do peruano Pedro Arana, um dos
fundadores da FTL. Em sua palavra de abertura, ele desafiou-nos à missão, em
meio à tensão. Essa tensão dá-se entre a providência divina, o fato de que o
Senhor reina, e o caos humano, o fato de que o pecado está presente no mundo.
Logo, essa missão só será efetiva quando a Teologia apresentar as respostas da
fé às perguntas da sociedade. Dentre as perguntas da sociedade atual, duas se
destacam: como viver num mundo marcado pelo liberalismo econômico, onde o ser
humano é transformado em um mero produto ou em um mero consumidor? Como viver
num mundo marcado pela amoralidade, onde cada pessoa estabelece seus próprios
critérios de bem e mal, de certo e errado? Respondendo à primeira pergunta,
Arana diz que a maior preocupação de Deus sempre foi o ser humano. Assim, a
missão da Igreja deve ser humanista e humanizadora. Em resposta à segunda
pergunta, ele afirma que a missão da Igreja deve ser coerente com a ética da Igreja.
Assim sendo, a missão da Igreja deve refletir a ética que encontra-se na
Bíblia, de modo geral, e no Evangelho de Jesus, de modo específico. Arana diz também
que a missão precisa ser ecumênica. Para tal, precisamos dialogar, não
negociar. Dialogar em busca da unidade do Espírito, expressa no vínculo da paz.
Ele concluiu sua palavra de abertura reafirmando a missão: missão consiste em
dar testemunho do Reino de Deus, no mundo de Deus, com palavras e ações.
Nos dois devocionais que dirigiu, Arana
trouxe-nos ainda palavras inspiradoras. Destaco a primeira, baseada em Mateus
28:16-20, na qual ele apresenta-nos 4 características da Igreja de Jesus: Igreja
comunidade da esperança, porque vai para a Galiléia e espera pela ação de Deus;
Igreja comunidade da obediência, porque vai para o lugar que Jesus havia
indicado; Igreja comunidade da adoração, porque, quando viram Jesus, alguns
adoraram; e Igreja comunidade da imperfeição, porque, quando viram Jesus,
outros duvidaram. Num bate papo com Arana, na fila do almoço, sugeri uma quinta
característica, que foi acolhida por ele: Igreja comunidade da missão, porque,
no texto, o que segue é o “indo, façam discípulos de todas as nações,
batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, e ensinando-os a obedecer
a tudo que eu [Jesus] disse”.
As reflexões em torno da mesa também foram
ricas. Na primeira mesa, refletimos sobre “memórias e experiências da missão”.
Dessa mesa, onde cada participante conta sua história e sua prática da Missão
Integral, chamou à atenção o fato de que todos os quatro tiveram envolvimento
com o movimento estudantil. Na segunda mesa, refletimos sobre “Teologia, arte e
literatura”. Dessa mesa, dois destaques: o fato de que os seres humanos são à
imagem e semelhança de Deus quando criam, e o fato de que a Teologia precisa
resgatar a imaginação, vista, até hoje, como “a louca da casa”. Na terceira
mesa, refletimos sobre “Teologia, espiritualidade e sexualidade”. Dessa mesa
ressalto dois aspectos, um positivo e um negativo. O positivo é o fato de que a
sexualidade faz parte da conjuntura humana e, como parte dessa conjuntura, pode
ser fonte de prazer ou de sofrimento. Muito interessante, tal percepção! O
aspecto negativo é percebido através de algumas afirmações, tais como: “viver a
sexualidade de forma não controlada”, “a esfera da sexualidade é autônoma” e “amor,
responsabilidade e ternura são os pré-requisitos para o desfrutar da
sexualidade”. Penso que essas afirmações precisam ser checadas à luz da revelação
de Deus, tal como a encontramos nas Escrituras. Revelação que afirma a criação
de homem e de mulher, que afirma a união – compromisso com intenção de
permanência – entre um homem e uma mulher, e que afirma o tornar-se uma só
carne – processo que inicia-se com o ato sexual, mas que o transcende – entre
um homem e uma mulher. Revelação que afirma que o sexo é bom – aliás, é muito
bom, é excelente – e que deve ser desfrutado no casamento, entre um homem e uma
mulher. Revelação que afirma a corrupção da sexualidade, chamando-a de
“imoralidade sexual” e ordenando-nos a fugir dela. Revelação que afirma, como lembrou-nos
um dos participantes, citando Dallas Willard: “Tudo o que fazemos para Deus, o
fazemos no corpo (...) e também todo pecado acontece no corpo.”. Revelação que
afirma a graça absolutamente acolhedora, mas também absolutamente
transformadora. Em síntese, revelação que afirma a bondade da criação, a
desgraça da queda, a graça da redenção e a esperança da consumação do Reino de
Deus, que já está entre nós. Na quarta mesa, refletimos sobre “Teologia, espaço
público e política”. Dessa mesa, pontuo uma significativa questão acerca da
qual precisamos pensar: “como é ser uma igreja privada no espaço público?”. Ou seja,
“qual é o lugar das ‘doutrinas abrangentes’ na sociedade?”.
Das cinco mesas, destaco a última. Nessa mesa
refletimos sobre “Identidades e desafios da missão”. Durante essa reflexão, deparamo-nos
como uma triste realidade, da qual já desconfiávamos: os evangélicos nunca
abraçaram e nunca abraçarão a Teologia da Missão Integral. Isso porque a
maioria dos evangélicos não vê no Evangelho uma oportunidade de serviço, mas de
sucesso. Isso porque a maioria dos evangélicos é fundamentalista. Isso porque
as meta-teorias (pressupostos) da maioria dos evangélicos afasta-os da Missão
Integral. Por exemplo: a meta-teoria do dualismo espiritualista e a meta-teoria
do racionalismo cartesiano iluminista, que conduz ao biblicismo (idolatria da
Bíblia). Deparamo-nos também com um interessante desafio de ler a Bíblia e de ler
a vida. De dar passos adiante. De ir além das questões iniciais da Missão
Integral e refletir sobre “teologia feminista”, “homoafetividade”, “teologia
negra”, “diálogo inter-religioso” entre outras temáticas. Desde que a nossa reflexão
seja bíblico-histórico-teológica, considero não só necessária, mas urgente tal
reflexão.
E o que não foi bom? Não foi bom o tempo que
dedicamos à oração. Oramos muito pouco e deveríamos ter orado mais. Também não
foi bom o fato de ouvirmos, calados, muitas críticas, ácidas, à Igreja de
Jesus. Críticas vindas, na grande maioria das vezes, de pessoas que não estão
vivendo a vida da Igreja, de pessoas que estão apenas refletindo,
teologicamente, no ambiente da academia. Que Deus tenha misericórdia de nós e
nos perdoe! Ainda não foi bom o silêncio em relação ao CLADE V. A única aparição
desse importante congresso foi na distribuição da revista Práxis Evangélica, da Faculdade Teológica Sul-Americana, fato que
não pode passar batido.
Por fim, conhecer Salvador foi uma experiência
maravilhosa. Circular o Farol da Barra, caminhar pelas ruas do Pelourinho,
descer e subir pelo Elevador Lacerda, apreciar o artesanato do Mercado Modelo,
visitar a Igreja do Senhor do Bonfim, passar em frente à velha-nova Fonte Nova
e contemplar a praia de Itapuã foi excelente. Gostei muito de Salvador. Gostei
ainda mais de Lauro de Freitas, cidade visinha onde fiquei hospedado, na casa
de um amigo. Vilas do Atlântico é um bairro maravilhoso, com uma praia paradisíaca.
Vale a pena conhecer!
É isso! Que Deus abençoe a FTL continental e
nacional! Que Deus abençoe a nova diretoria, eleita durante a Consulta Nacional
2013! Que Deus abençoe a sua Igreja no Brasil, na América Latina e no mundo!
Luiz Felipe Xavier.
Obs.: Embora eu seja
secretário da FTL-B, essas considerações acima são minhas e não expressam a
posição da instituição.
Olá Felipe!
ResponderExcluirestava passeando pelo facebook e vi uma postagem do seu blog em minhas atualizações, temos alguns amigos em comum. Quando olhei o tema da postagem, me interessei, pois eu estava no evento.
Quero aqui, parabenizá-lo pela iniciativa de ter refletido e ter materializado suas percepções em relação a FTL-B, atitude louvável.
Assim como você, gostei muito e endosso os elogios feito por você ao evento. Foram momentos significativos e de oportunidades únicas, de ouvir e compartilhar idéias, já que não é uma prática tão comum nos dias atuais. Mas, se me permite, não comunguei com suas críticas, achei que elas estão um pouco deslocadas.
Como secretário, acredito ser saudável vc conhecer a história e proposta da FTL, o que te proporcionaria uma outra expectativa em relação a mesma. Nunca foi intenção que fosse um espaço de oração e sim de reflexão. Tivemos um ótimo biblista que trazia reflexões devocionais acompanhado de oração, o que nunca faltou em nenhuma das consultas. Quanto a sua queixa de ouvir calado, lembro-me da mesa sobre sexualidade, que foi ressaltado o fato de termos poucas perguntas e o momento de maior silencio da platéia. Vc escreveu de uma forma que deu margens para acharem (quem ler seu texto, sem estar presente no evento), que não foi dado de forma significativa as oportunidades para tais questionamentos. As críticas que foram feitas "A Igreja", eu entendi que se estava tratando de Igreja Instituição, que não foram em nenhum momento levianos quanto o assunto. Acredito que vc deve perceber melhor a que Igreja estavam sendo feitas as críticas. Minha preocupação aqui, é em relação a quem ler o seu texto, que automaticamente fará interpretações, já que as críticas não estavam sendo a Igreja de Jesus Cristo, e sim, ao que os pastores e pastoras estão fazendo, ou fizeram com ela. Por último, não esta sendo justo quando diz que as críticas estavam sendo feitas por pessoas que estão fora da Igreja, pois conheço alguns dos palestrantes e te afirmo que todos os que conheço estão muito dentro. Alguns ali, construíram história dentro da mesma. São pessoas sérias e comprometidas com o Evangelho Integral e libertador, o que não quer dizer necessariamente estar no Clero da mesma (coisa que não tem ajudado muito, em alguns casos).
Enfim irmão, espero que o meu comentário sirva de alguma maneira para uma melhor reflexão. E, espero que tenhamos uma melhor aproximação e diálogo...
Um abraço
Jefferson Silva
Luiz,
ResponderExcluirSó gostaria que esclarecesse melhor a frase:
"Revelação que afirma a corrupção da sexualidade, chamando-a de 'imoralidade sexual' e ordenando-nos a fugir dela".
Onde nas Escrituras a sexualidade, em si, é considerada "imoralidade sexual" e onde somos ordenados a "fugir dela"? Até onde entendo, a corrupção está cravada no coração (centro da vontade e do ser) humano (veja Jeremias 17), e não especificamente "na sexualidade". Por derivação, o pecado afeta então todas as áreas da vida e não especialmente esta. E "fugir dela"? Se Deus nos fez sexuados para que apenas fugíssemos de nossa sexualidade, esse Deus só pode ser sádico ou um louco.
Por fim, obrigado pela menção a Práxis, significa muito.
Abraço mano,
Jonathan
Pastor Luiz Felipe, obrigada por dar aqueles que não foram a consulta da FTL uma síntese do que aconteceu. Li agora, porém quero ler mais algumas vezes para comentar e compartilhar. Já vi que foi demais. Já pontuo que a sua tristeza por ver comentários de quem não vive a realidade da igreja já falou ao meu coração. Creio que Deus quer falar mais. Abraço.
ResponderExcluirOlá, Jefferson!
ResponderExcluirObrigado por sua reação ao meu texto!
Quero tecer apenas 3 comentários:
1) Até o ano 2000, conheço a história da FTL de ler; após o ano 2000, conheço a história de participar: liderança (junto com o Christian Gillis) do núcleo de BH, várias Consultas Nacionais da FTL-B, CBE 2, Missão 2006, visita ao núcleo da FTL em La Paz (Bolívia) e CLADE V. Não queria que fosse um espaço de oração, mas que a reflexão fosse feita com mais oração.
2) No texto, disse, claramente, que a dinâmica horizontalizada da mesa deu voz a todos os presentes. O silêncio ao qual me referi foi opcional.
3) Quanto às críticas à Igreja, penso que, em alguns momentos foram demasiadamente ácidas. Algumas vezes, feitas por gente que não está (no presente) vivendo a vida da Igreja.
Vamos seguir caminhando, meu camarada.
Abraço,
Luiz Felipe Xavier
Olá, Jonathan!
Obrigado por seu comentário!
Segue o esclarecimento que você pediu:
Em nenhum momento disse que a sexualidade em si é considerada imoralidade sexual, mas que a corrupção da sexualidade, pelo pecado, gera a imoralidade sexual. Devemos fugir não dá sexualidade em si, mas da imoralidade sexual (Cf. 1 Co. 6:18). Acho que isso está claro no texto.
Abraço,
Luiz Felipe Xavier